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RJ – Livro – José Gonçalves da Silva à Nação Brasileira: O tráfico ilegal de escravos no antigo Cabo Frio

Por Nilma Teixeira Accioli

Apresentação

Este trabalho tem como objetivo principal um documento bastante singular: José Gonçalves da Silva à Nação Brasileira, publicado pelo traficante de escravos em questão, buscando comprovar o que considerava uma injustiça. O documento foi publicado através da Tipografia da Universidade de Coimbra e traz o ponto de vista de José Gonçalves sobre o processo que sofreu, desde a invasão das suas propriedades em Cabo Frio até as “recordações históricas” que encerram o documento, publicado em 1864.

Embora seja um documento sobre um caso particular, ele permite o conhecimento o acesso a um momento bastante decisivo na história do período imperial, quando o governo teve que marcar uma mudança na condução do país, da qual o tráfico de africanos era um dos aspectos dos mais importantes. O caso de José Gonçalves, além das características particulares, traz em seu desenvolvimento a nova postura adotada pelo governo em relação ao tráfico de africanos, mudança consolidada na lei de 1850, que determinou o fim do tráfico intercontinental.

O exemplar pesquisado faz parte do acervo da Biblioteca Nacional e foi o objetivo principal do projeto, contemplado pelo Fundo Nacional de Apoio à Pesquisa, para estudo. Para aprofundar muitas questões apresentadas por José Gonçalves no seu libelo, que reunia documentos com os quais procurava comprovar suas afirmações, foi de fundamental importância a consulta ao grande acervo, desde os manuscritos até o acervo digitalizado, sobre o tráfico de africanos existente na Biblioteca Nacional.

Na busca de mais informações sobre José Gonçalves, outras instituições foram visitadas. No Arquivo Nacional, consultei o processo de inventário de Anna Francisca Moreira da Silva, os processos contra o José Oliveira Gago, contra Antonio Antunes Moreira e o processo aberto pelos herdeiros de José Antonio dos Guimarães, entre outros documentos. Também foi muito importante a consulta ao livro de Batismo do Arquivo da Cúria Metropolitana de Niterói , os relatórios dos presidentes de província e dos ministros de justiça e atas da Câmara de Cabo Frio, permitindo ampliar o conhecimento sobre a vida do traficante e comprovar grande parte dos dados apresentados no libelo.

Para este estudo, sempre me foi muito instigante como o nome de José Gonçalves foi preservado através da memória dos afrodescendentes dos vários municípios surgidos Programa Nacional de Apoio à Pesquisa – FBN/MinC no território do antigo Cabo Frio. Em 2006, realizando pesquisa como então diretora do Departamento de Cultura de Iguaba Grande para uma exposição sobre os afrodescendentes da região, o nome dele era constantemente citado.

Em 2008, através do Projeto Revelando os Brasis, pude realizar o documentário Ibiri, Tua Boca Fala Por Nós2, sobre remanescentes de quilombos, quando obtive muitas informações sobre José Gonçalves, que foi pouco estudado pela historiografia, embora alguns autores, como Brasil Gerson, façam referência a ele.

Foi muito importante para a pesquisa a memória de José Gonçalves da Silva entre os moradores da Rasa, bairro surgido em partes das terras que lhe pertenciam e onde existem presumíveis descendentes de José Gonçalves.

Na minha especialização em História do Rio de Janeiro, na UFF, elaborei a monografia Campos Novos e o tráfico ilegal de escravos, estudando a importância da fazenda Campos Novos na rota clandestina do tráfico criada por José Gonçalves, cuja memória foi preservada pelos moradores. Na Rasa, em Armação dos Búzios, onde a memória sobre o traficante foi mais preservada, as pessoas fazem referência às dificuldades do lugar como consequência de ser um “bairro de pretos” trazidos pelo “Zé Gonçalves”. Vários depoimentos foram gravados na Rasa.

Sempre observo que, em Armação dos Búzios, José Gonçalves não é um anônimo, ele sobrevive em questões locais, em sites de turismo sobre a cidade e até nas discussões ocorridas devido à proposta de mudança do nome da Praia de José Gonçalves, quando a população decidiu pela permanência desse nome. É muito interessante o fato de os descendentes dos antigos escravos terem a memória exata do local das terras da fazenda de José Gonçalves. Essas questões são importantes para a compreensão de um fato particular, mas também, e principalmente, de como a escravidão marcou profundamente a sociedade brasileira e em especial aquela região.

Clique aqui e leia o livro na íntegra

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