Quilombolas de Paratibe lutam para preservar tradições
Quilombos na Paraíba
Existem 23 quilombos na Paraíba, formados por negros remanescentes de escravos, sendo dois urbanos e 21 rurais. Apesar de não titulados, eles estão reconhecidos pela Fundação Cultural Palmares, do Ministério da Cultura. Outros 12 estão em processo de reconhecimento no Estado.
Uma comunidade quilombola rural localizada em Paratibe, no bairro de Valentina, em João Pessoa, possui aproximadamente 120 famílias remanescentes dessa população originária do período escravocrata. Ela se formou há aproximadamente 130 anos, segundo estudos de pesquisadores de História, mas a atual invasão do local por loteamentos, condomínios e forasteiros está descaracterizando o quilombo, bem como a própria auto-estima da comunidade como descendente de africanos.
Esta comunidade de Paratibe, reconhecida como quilombo em 11 de julho de 2006, e a de Talhado, reconhecida em 12 de julho de 2005, situada no município de Santa Luzia, são os dois únicos quilombos urbanos da Paraíba. Outro quilombo localizado em João Pessoa é Mussumago, que sequer teve ainda o auto-reconhecimento pelo Ministério da Cultura. No Brasil, já se tem notícia de mais de 2.790 quilombos, sendo que, desses, 1.178 já receberam certificado da Fundação Cultural Palmares.
O auto-reconhecimento possibilita aos quilombos acesso a uma série de benefícios na área das políticas públicas. Desde 2003, o governo federal vem priorizando nesse setor as comunidades tradicionais – população indígena, quilombolas e ciganas, o que se configurou numa grande conquista das populações, uma vez que, na maioria das vezes, na Paraíba, as comunidades tradicionais não possuem acesso à terra, com exceção das duas urbanas, de Paratibe e Talhado (em Santa Luzia).
A líder comunitária do quilombo de Paratibe, Joseane Pereira da Silva Santos, disse que as pessoas têm cedido ao preconceito e falou da dificuldade para reafirmar a comunidade como quilombo. Embora o reconhecimento como quilombo tenha trazido benefícios na área de políticas públicas, como habitação, infra-estrutura, saneamento, saúde, educação, ela disse que os moradores parecem ter vergonha da própria origem, renegando inclusive as raízes negras.
“Tínhamos nossos costumes na comunidade, mas as pessoas foram deixando de lado por causa do preconceito, a comunidade não estava se aceitando, queria esquecer o passado. Os loteamentos foram chegando e nossa origem ficou para trás”, revelou Joseane. Ela e o grupo comunitário estão tentando resgatar, através da conscientização, a auto-estima do quilombo.
Quando os primeiros habitantes do quilombo se estabeleceram em Paratibe, eles sobreviviam da coleta de frutos, do caranguejo, plantio de roças, extração de lenha, da carvoaria, caça e pesca, mas atualmente quase tudo está esgotado naquela região, bem como os costumes e cultura local também não sobreviveram.
O pesquisador Acácio Gouveia disse que a comunidade não conseguiu preservar costumes tradicionais como a ciranda, o coco de roda, folguedos, o banho de rio, as festas religiosas, o “fazimento de quartos” (culto aos doentes e defuntos), os funerais com as excelências, o curandeirismo, os cultos religiosos de matriz africana, como umbanda e candomblé. “Há uma senhora que ainda pratica o candomblé, em Paratibe, mas por causa do preconceito, ela não diz”, informou o pesquisador.
Um dos integrantes da Associação de Apoio às Comunidades Afrodescendentes da Paraíba (AACADE), Francimar Fernandes de Sousa, disse que o problema se estende a todo o Estado, não apenas a Paratibe.“Não identificamos a religião de matriz africana nas comunidades afrodescendentes auto-reconhecidas da Paraíba, acredito que por causa do preconceito e da influência do catolicismo”, relatou.
Para ele, “preservar a memória da comunidade é tornar visível a trajetória do quilombo”. Ele contou que a criação do conjunto do Valentina de Figueiredo, há mais de 20 anos, é um dos motivos por que ocorreu a descaracterização do quilombo, com a vinda de pessoas dos mais diversos lugares da Paraíba, das mais diversas raças.
“Hoje, tem crianças aqui que não se consideram negras, porque passaram para elas que negro não tem valor”, contou a líder comunitária de Paratibe, Joseane Pereira. Ela denunciou o preconceito vivenciado nas duas escolas do local, Antônia do Socorro Silva Machado e Jubileu de Ouro, que não são preparadas para a realidade do quilombo.
A dificuldade de resgatar as origens do quilombo também se deve ao fato de haver divisão entre pessoas tradicionalistas, que querem resgatar a sua história ligada ao povo africano, escravizado, e aqueles que preferem esquecer o passado. Grande parte dos descendentes daqueles negros venderam suas terras para a construção de loteamentos. Muitos se casaram com pessoas que chegaram de fora, e a maioria das pessoas mais velhas do quilombo já faleceu. Ainda existem idosos na média dos 70 anos, no quilombo de Paratibe, mas não há mais vestígios nem cultural nem do patrimônio material ligado àquele povo, como pilões, cerâmicas, correntes, algum tipo de relíquia ou mesmo fotografias da época dos descendentes mais antigos dos negros que se instalaram na região. A história do quilombo desapareceu com o tempo. ‘Tem muita gente que não quer ser negro’
Antônio Albino Pereira da Silva, de 76 anos, é um dos remanescentes mais antigos de Paratibe. Ele tem 12 filhos, 28 netos e 7 bisnetos, e tem orgulho de ser negro e de pertencer ao quilombo. “Tem muita gente que não quer ser negro, mas eu sou e com orgulho”, disse. Sua esposa, a artesã Maria de Nazaré Pereira da Silva, tem 72 anos, também nasceu e cresceu em Paratibe, e está feliz com os avanços conseguidos pela comunidade, que inclusive teve as casas de taipa substituídas por casas de tijolos, entregues pela Prefeitura de João Pessoa, construída através do programa “Minha Casa, Nossa Cidade”.
A pesquisadora Solange Rocha, da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), que estudou a existência, já no século XVIII, de vestígios dos remanescentes de negros do tempo da escravidão, no Estado da Paraíba, disse que “é natural que as pessoas queiram esquecer o passado dolorido da escravidão, pois a questão do racismo no Brasil é muito forte”, frisou.
O morador de Paratibe Eraldo Miguel da Silva, de 63 anos, disse que, segundo lhe contaram seus pais, a comunidade se originou da instalação de sete pessoas na região. “Hoje em dia está uma cidade”, frisou. Ele não admite ser remanescente de escravos, mas também não conhece a própria descendência, pois seus pais e avós não lhe passaram essas informações. “Eu me preocupo em buscar a história da gente para não morrer junto com os mais velhos”, ressaltou a líder comunitária Joseane Pereira da Silva. (AL)
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