Carta aberta à mineradora canadense Equinox Gold e às autoridades brasileiras

Nós, organizações da sociedade civil brasileira e internacional, gostaríamos de expressar nossa grande preocupação e indignação pela situação que atinge atualmente as 1.500 famílias do distrito de Aurizona, situado no município de Godofredo Viana, na região amazônica do estado do Maranhão.

Desde o dia 25 de março deste ano, as mais de quatro mil pessoas da comunidade se encontram sem um abastecimento regular e adequado de água em razão do rompimento de uma barragem da mina de ouro da empresa Mineração Aurizona S.A. (MASA), de propriedade da mineradora canadense Equinox Gold. Em um momento extremamente crítico por conta da pandemia da Covid-19, a falta de acesso à água potável agrava ainda mais a situação de vulnerabilidade das famílias atingidas.

Apesar de a empresa continuar insistindo que a água distribuída está livre de contaminação, os atingidos denunciam o fornecimento de água suja, com presença de lama e de um forte odor. O contato com essa água tem gerado problemas de saúde na população, como a irritação na pele em diversas crianças, jovens e adultos da região.

Por meio desta carta aberta, fazemos um chamado à empresa Equinox Gold, mas também às autoridades nas esferas municipal, estadual e nacional, para que estabeleçam um canal permanente de diálogo com a comunidade para a criação de uma agenda que atenda as reivindicações emergenciais e históricas da população atingida pela barragem de Aurizona, dentre as quais destacamos:

À empresa Equinox Gold:

  • O restabelecimento imediato do fornecimento de água potável a todas as residências e comércios de Aurizona.
  • Garantia de uma renda emergencial para todas as famílias de Aurizona, no valor de um salário mínimo por pessoa adulta, meio salário para jovens e um terço para crianças, a exemplo da conquista dos atingidos em Brumadinho (MG).
  • A negociação e o pagamento de uma justa indenização às pessoas da comunidade que se dedicam à pesca, que não só perderam seus equipamentos de pesca, mas também se encontram atualmente impedidas de realizar essa atividade devido à contaminação dos recursos hídricos.
  • A negociação e o pagamento de uma justa indenização a comerciantes pelos danos causados pela interrupção do fornecimento de água potável.
  • Instalação de torres de celulares no distrito de Aurizona-MA, para que os atingidos possam ter maior acesso aos canais de comunicação e diálogo com as diversas instituições envolvidas na solução dos problemas causados pela mineradora.
  • Direito à informação, mediante ao acesso dos atingidos aos laudos técnicos preliminares sobre a análise da água da região e de todos os impactos sociais e ambientais, bem como sobre os riscos reais de novos rompimentos de barragens da Empresa Mineração Aurizona S/A.
  • Garantia do direito à assistência realizada por Assessorias Técnicas Independentes.
  • Realização de um diagnóstico social de curto, médio e longo prazo sobre os impactos e as consequências das violações de direitos humanos sofridos pela população atingida, a ser feito por uma organização de confiança e escolhida pelos atingidos.                            

 Ao governo do Estado do Maranhão:

  • Acompanhar e assegurar o cumprimento dos compromissos assumidos pela mineradora Equinox Gold.
  • Destinar uma equipe médica do governo do estado para fazer o atendimento das famílias atingidas pelo rompimento, levando-se em conta que as consequências para a saúde da população são diversas.
  • Providenciar vistorias técnicas a serem realizadas pela Defesa Civil do Estado nas casas com rachaduras, trincas e fissuras em decorrência das explosões diárias da mineração.
  • Garantir a segurança dos defensores de direitos humanos da comunidade.
  • Apurar junto ao comando da Polícia Militar as circunstâncias da prisão ilegal de duas defensoras no dia 25 de abril.
  • Apurar as denúncias sobre a criminalização das lideranças locais.
  • Garantir a agilidade e disponibilização das análises laboratoriais da água de toda a região, feitas pela Secretaria do Estado de Meio Ambiente (Sema) e CAEMA.
  • Providenciar mais fiscalização sobre as áreas de operação da mineradora, já que há sinais de que a mesma visa expandir sua área de exploração, em territórios mais próximo da área de moradia da população.
  • Aplicar multa no valor de 10 milhões e outras necessárias para a implantação de um plano de reestruturação social e produtiva para as famílias atingidas de Aurizona-MA a ser apresentado pelos próprios atingidos.

Ao governo municipal:

  • Fiscalizar, acompanhar e assegurar o cumprimento dos compromissos assumidos pela mineradora, bem como cobrar o cumprimento de todas as reivindicações dos atingidos.
  • Garantir a transparência em relação à aplicação dos recursos recolhidos pelo município provenientes da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) em benefício da comunidade.

À Agência Nacional de Mineração (ANM) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio):

  • Apurar as circunstâncias do rompimento da Barragem Lagoa do Pirocaua e assegurar maior rigor na fiscalização e monitoramento das atividades da Mineradora, tendo em vista os riscos de deslizamento das montanhas de estéril ou a possível ocorrência de rompimentos de outras barragens;
  • Disponibilizar os relatórios referentes à análise laboratorial da água coletada no dia 01 de abril, em loco, pelo ICMbio.

Grande parte das reivindicações descritas são urgentes, mas também exigem uma extensa agenda de medidas por parte da empresa e gestores públicos, uma vez que estão relacionados aos direitos humanos, econômicos, sociais, culturais e ambientais das famílias atingidas pela empresa Equinox Gold.

Nós, da sociedade civil do Brasil e de outros países, reiteramos nosso compromisso em continuar com ações de visibilização e de pressão para que a empresa e as autoridades tomem as medidas necessárias para o respeito, a proteção e a promoção do direito das famílias atingidas a uma vida digna.

Assinam:

Organizações brasileiras:

Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB
Articulação do Semiárido Brasileiro – ASA Maranhão
Actiecomité Utrecht em Defesa da Democracia no Brasil
AMAVIDA
Articulação do Semiárido Brasileiro – ASA Maranhão
Associação dos Empregados da Eletrobras – AEEL
Central Única dos Trabalhadores – CUT/MA
Centro de Defesa Ferreira de Sousa
Coletivo de Mulheres Silva Cantanhede
Coletivo Maya
Coletivo Por Um Brasil Democrático (CPBD-LA)
Conselho Pastoral dos Pescadores – CPP
Coalition étudiante pour un virage environnemental et social – CEVES
Cooperativa de Trabalho de Prestação de Serviços para o Desenvolvimento Rural Sustentável da Agricultura Familiar – COOTAP
Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (CONAQ)
CSP Conlutas Maranhão
Defend Democracy in Brazil Committee
Deputado Federal Célio Moura – PT/TO
Deputado Federal João Daniel (PT-SE)
Deputado Federal Padre João – PT/MG
Deputado Federal Rogério Correia – PT/MG
Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros (Fisenge)
Federação Única dos Petroleiros – FUP
Frente Internacional Brasileira Contra o golpe e pela Democracia
Grupo de Pesquisa e Extensão Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade – PoEMAS
Justiça nos Trilhos
Koinonia Presença Ecumênica e Serviço
Laboratory State, Labour, Territory and a Nature / Federal University of Rio de Janeiro
Levante Popular da Juventude
Marcha Mundial de Mulheres – MMM
Movimento Camponês Popular – MCP
Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA Piauí
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST Piauí
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST Maranhão
Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB
Movimento dos Atingidos pela Base de Alcântara – MABe
Movimento dos Pescadores e Pescadoras do Maranhão
Plataforma Operária e Camponesa da Água e Energia – POCAE
Resistência Brasileira na Suécia
Revoluciona o Mundo
Sindicato dos Administradores do Estado do Rio de Janeiro – SINAERJ.
Sindicato dos Bancários do Maranhão
Sindicato dos Engenheiros da Bahia – SENGE Bahia
Sindicato dos Petroleiros de Duque de Caxias/R.J – Sindipetro Caxias
União Estadual por Moradia Popular – MA
Associação Agroecológica Tijupá
Central Unica dos Trabalhadores Maranhão – CUT MA

Organizações Internacionais:

ALMA- Africa y Latinoamérica en Mallorca
Coletivo Amsterdam pela Democracia
Collectif Alerte France Brésil / MD18
Coletivo Brasil-Québec
Comité pour les droits humains en Amérique latine (CDHAL)
Carrefour d’Animation et de Participation à un Monde Ouvert (CAPMO)
Defensa y Conservación Ecológica de Intag (DECOIN)
Earthworks
Global Justice Clinic NYU Law
KAIROS: Canadian Ecumenical Justice Initiatives
MiningWatch Canada
Projet Accompagnement Québec-Guatemala (PAQG)
Public Service Alliance of Canada – Alliance de la Fonction publique du Canada
The Gaia Foundation
US Network for Democracy in Brazil

Carta publicada originalmente no portal do Movimento dos Atingidos por Barragens

Dos efeitos das enchentes à organização para a luta: A trajetória das atingidas da Zona Leste de SP

Por Diego Ortiz
Coletivo de Comunicação do MAB*

Na manhã de 28 de janeiro, os atingidos da zona leste se reuniram na sede do Grêmio União de Vila Nova, no Jardim Nair, para manifestar aquilo que há muitos anos afeta a vida população: as constantes perdas provocadas pelas enchentes.

Portando máscaras, distribuindo álcool em gel, vestindo camisetas do MAB e carregando bandeiras e cartazes com fotos das enchentes, os atingidos marcharam pelas ruas dos bairros atingidos em direção à subprefeitura de São Miguel Paulista.

A “mulherada”, termo usado nestes espaços ao se referir ao engajamento das mulheres nas lutas e ações, era a grande maioria daquela marcha, que caminhou até a subprefeitura para reivindicar seus direitos.

O calor, a subida e o cansaço não foram impedimento para o povo, que entoava músicas e palavras de ordem que davam o tom da luta e animavam o espírito coletivo. “Águas para a vida, não para a morte!”, “Atingidos em defesa da vida: basta de enchentes!”, “Somos todas e todos atingidos!” foram algumas das frases recorrentes, repetidas no trajeto e no ato, especialmente na chegada à subprefeitura.

“Aqui toda vez que chove a gente perde nossa história”, comenta uma das companheiras da região sobre as enchentes, na ocasião de uma das enchentes em 2020.

Na zona leste de São Paulo, mais precisamente na região de São Miguel Paulista e Itaim Paulista, às margens do Rio Tietê, são milhares as pessoas que sofrem com as enchentes. A cada chuva que chega, e principalmente durante as chuvas de verão, casas e ruas ficam alagadas, provocando inúmeras perdas – colchões, móveis, eletrodomésticos, carros, documentos, alimentos, objetos pessoais e memórias que ficam submersas e perdidas nas águas que, por vezes, alcançam a altura de uma pessoa adulta.

Além disso, a água se mistura ao esgoto, o que é fonte de doenças e ataca a saúde da população. Em todos os casos, ainda, o trauma e os efeitos psicológicos são tão grandes que, a qualquer chuva, as pessoas ficam desesperadas, buscando resgatar pertences levando-os para outras casas ou em andares construídos acima do térreo como refúgio nos períodos de enchentes.

Não se trata apenas de um efeito climático, mas de um processo histórico e social de exclusão, no qual a população mais pobre e trabalhadora foi obrigada, nas grandes cidades, a ocupar regiões periféricas em morros ou várzeas de rios, muitas vezes de modo desordenado, acessando moradias em situações precárias, sem o apoio de políticas de planejamento urbano e infraestruturas associadas que atendessem este contingente.

Enquanto isso, as áreas nobres e valorizadas ficaram em mãos das classes mais ricas. Para além deste processo, esses bairros da zona leste atingidos por enchentes são ainda mais afetados pelo fechamento das comportas da barragem da Penha, de responsabilidade do governo estadual, em épocas de chuva, para evitar o transbordamento do rio na altura da marginal Tietê, enquanto as barragens acima são abertas, o que gera uma grande concentração de águas no local.

O assoreamento dos rios, o asfaltamento de várzeas, o descaso dos governos sucessivos, tanto municipal como estadual, são agravantes de um problema social que existe há décadas, e que na atual conjuntura é somado aos efeitos da crise sanitária da Covid-19 e crise econômica (desemprego, ausência de renda, aumento das infecções, etc.), impactando de maneira negativa os atingidos.

A luta, no entanto, não começa nem termina no ato do dia 28. Antes e depois desse dia, a jornada de reinvindicações é constante e cotidiana, empreendida pelos coordenadores e coordenadoras do MAB, nas passagens de casa em casa das famílias atingidas pelas enchentes, tanto para saber da situação como para convidá-las à luta com organização do movimento, realizando reuniões, planejando ações, buscando acabar com as enchentes e garantir a reparação da população.

As famílias se organizam em grupos de atingidos, definindo coordenadores e coordenadoras por grupo, e assim vão se somando ao longo de toda a região para defender seus direitos. Esse trabalho organizativo do MAB na zona leste é realizado em meio às enchentes e pandemia, no início de 2020, com ações de solidariedade e ajuda emergencial e humanitária, em parceria com a Koinonia – Presença Ecumênica e Serviço (que representa o Fórum Ecumênico ACT Brasil), distribuindo alimentos, materiais de higiene, máscaras, álcool em gel, dando apoio psicossocial às famílias nesse período de crise.

Foi assim que Maila Amaral das Neves, atingida pelas enchentes e moradora do bairro União de Vila Nova, assim como muitas mulheres da região, se organiza no movimento para lutar pelos direitos das populações atingidas pelas enchentes.

Maila é uma das coordenadoras na região e nos explica o processo de envolvimento, organização e luta. “Para mim, foi um algo novo na verdade, eu não me envolvia com política, só fazia o meu papel de cidadã, ia lá votar e tchau, né. Mas, fiquei impressionada, tive oportunidade de falar da minha comunidade, de estar presente em reunião com o prefeito e foi gratificante, foi prazeroso. O MAB tem pessoas muito fortes, guerreiros, na reunião, eu pude ver o pessoal falando alto, duro, eles reivindicam, solicitam, lutam pela população mais carente”.

A atingida conta que conheceu o MAB depois do crime da Vale em Brumadinho, e foi convidada pela pastora Neia, que segundo Maila é uma líder comunitária e “mulher guerreira”, faz trabalho a muito tempo na região, e sugeriu esse envolvimento. “Vejo a luta de todas as pessoas e me veio à vontade de abraçar essa causa”, relata.

“Descobrimos que existe uma porteira [barragem] na região da Penha, ali quando chove o que eles [DAEE] fazem é fechar a porteira onde a água não consegue passar, e a água acaba voltando toda para aqui para região de União de Vila Nova, e acaba afetando o Lapena, o Itaim Paulista, vila Mara, vila Seabra, Pantanal e fora outras regiões. Outra área muito prejudicada aqui na leste é também é o Jardim Keralux, uma região muito preocupante, muito atingida pela enchente”, diz Maila.

A moradora da Zona Leste disse que, antes, achava que a culpa disso tudo era da população por colocar lixo em qualquer lugar, mas depois descobriu que há um grande descaso dos governos com as barragens e a população da região.

“Na verdade, eles acabam fechando barreiras para benefícios próprios deles, para empresas, para várias coisas e isso acaba prejudicando a população menos favorecida”, pondera.

“Eu tenho depoimentos de famílias que perderam tudo, imagina uma pessoa perder tudo o que tem, o trauma, começar de novo todo ano, porque todo ano tem chuva, ela vai ter que continuar o ano inteiro trabalhando para conquistar novamente fogão, geladeira, máquina de lavar, muito difícil para quem não tem condições financeiras nenhuma”, comenta Maila.

Foi a partir dessa indignação que Maila passou a fazer parte da organização para lutar pelos direitos de atingidas e atingidos, e atualmente coordena, junto a outras três mulheres, um grupo de 34 famílias, priorizando atualmente o contato por mensagens para manter o distanciamento durante a pandemia e garantir a comunicação, um diálogo que ocorre diariamente, em um processo que potencializa a força coletiva.

“Eu acho interessante o trabalho em grupo, porque uma vai comunicando com a outra a necessidade de cada uma e sabemos que uma andorinha sozinha ela não faz verão, precisamos estar juntos, unidos para vencermos essa batalha, sabemos que não é fácil, mas a vitória é certa. Quando estamos unidos em grupo, um ajudando o outro, um escutando o outro, e assim nós vamos seguindo avante. É interessante porque o movimento dá oportunidade para outros coordenadores também fazerem parte dessa luta, e quanto mais pessoas para somar melhor vai ser para ganharmos a batalha”.

Em nome dessa união e da força coletiva, o grupo leva o nome de “Coragem”: “o nosso grupo chama ‘Coragem’ porque eu vi que são mulheres corajosas, são famílias com coragem de lutar, com vontade de vencer”, explica. Além do grupo “Coragem”, outros grupos têm se formado, e alguns já com nomes – como no caso dos grupos “Força MAB” e “Fortaleza MAB”. Segundo Maila, essa forma de se organizar “dá oportunidade para outros coordenadores também fazerem parte dessa luta, e quanto mais pessoas para somar melhor vai ser para ganharmos a batalha”.

O protagonismo que as mulheres têm no processo, sendo visível nas lutas e ações, é parte da essência do movimento. “Eu acho interessante ter essa participação de mulheres no MAB, porque de qualquer forma acaba mostrando para todos que a mulher tem o seu valor e que existem mulheres guerreiras, solidárias, mulheres que se preocupam com a causa das pessoas menos favorecidas” comenta Maila.

Como Maila, outras mulheres são coordenadoras dos grupos das famílias atingidas e estão construindo com bravura o Movimento dos Atingidos por Barragens na zona leste, e se somam na luta por um feminismo popular.

Perto do marco importante, com a data do 8 de março, as mulheres do MAB-SP se organizam sob o lema “Mulheres atingidas em defesa da vida!”. Serão muitas as ações e ampla a organização para exigir dos governos o direito a viver de maneira digna, acabar com as enchentes, reparar as perdas das famílias atingidas e, assim, também garantir o fim das opressões e defender a ampliação de direitos das mulheres.

Famílias em São Paulo recebem ajuda emergencial com apoio do FEACT Brasil, pela ACT Aliança

Articulação e organização com famílias da zona sul de São Paulo. Foto: MAB São Paulo

2 mil cestas com alimentos e artigos de higiene e limpeza serão distribuídas em ação liderada por KOINONIA, representando o Fórum Ecumênico ACT Brasil, em coordenação com o MAB.

English version: Families in São Paulo receive emergency aid with support from FEACT Brazil, by ACT Alliance

Por Natália Blanco/ Koinonia
Com informações de Liciane Andrioli e Ubiratã de Souza Dias/ MAB São Paulo

Cerca de 500 famílias atingidas por enchentes de bairros das zonas Leste e Sul de São Paulo e da Baixada Santista estão recebendo nesses três meses, cestas de alimentos e kits de higiene e limpeza, ação intensificada a partir do início de maio.  A ação é coordenada em aliança local com o Movimento de Atingidos por Barragens – MAB, parceiro de KOINONIA, representando o Fórum Ecumênico ACT Brasil¹.

Por meio de um Fundo Emergencial da ACT Aliança², a atividade faz parte de um projeto de solidariedade e organização com as famílias atingidas por recorrentes enchentes, que agora, se encontram em situação de ainda maior vulnerabilidade devido à pandemia da covid-19.

Os impactos são preocupantes e sinalizam a necessidade de articulações de solidariedade da sociedade civil com estas famílias, em sua maioria chefiada por mulheres.  De acordo com a pesquisa realizada em 260 favelas de todo o país, “Coronavírus – Mães da Favela” feita pelo Instituto Locomotiva e o Data Favela, cerca de 5 milhões de mulheres vivem em  as favelas. Cada mãe tem em média 2,7 filhos. Cerca de 70% das mães afirmam que a alimentação está prejudicada pela ausência ou diminuição brusca da renda em virtude do isolamento social. Ainda de acordo com o levantamento, quase 40% das mães que vivem em favelas são profissionais autônomas, somente 15% têm carteira assinada.

O processo de mapeamento e diálogo com as famílias, sobretudo com as mães chefes de família, vem se dando desde meados de março e também conta com articulação de parceiros em cada território, assistentes sociais, agentes de saúde, movimentos sociais e lideranças locais de bairros, igrejas também têm se prontificado para colaborar. Identificamos as diversas ações de solidariedade em curso nos diferentes bairros, com o cadastramento das famílias identificamos aquelas onde as ajudas não chegariam e os locais onde uma distribuição descentralizada sem aglomerações seria possível.

Cerca de 2 mil cestas serão distribuídas nos bairros: União de Vila Nova, Jardim Romero, Jardim Penha, Vila Seabra e Vila Itaim Paulista, afetados pela barragem da Penha, Zona Leste; Grajaú, Pedreira, Cidade Dutra e São Luiz, no entorno da barragem Billings, na Zona Sul; e no bairro Pilões, região que beira o rio Cubatão, na cidade de mesmo nome, na Baixada Santista. Além das cestas,  o apoio psicossocial também tem sido feito com visitas de casa em casa e ações de incidência pública, especialmente em iniciativas de comunicação nesse tempo especial de confinamento.

A primeira leva de entregas das cestas e kits acontece na primeira semana de maio, as próximas estão agendadas para o final de maio e junho, com todos os cuidados de segurança necessários para evitar qualquer exposição de voluntários e beneficiárias/os ao vírus da covid-19.

Para Liciane Andrioli, do Movimento de Atingidos por Barragens paulista “neste momento com as políticas neoliberais do governo Bolsonaro, milhares de pessoas vêm perdendo seus diretos, muitas estão em situação de desemprego ou vivendo na informalidade; Com a pandemia do COVID-19, as condições de vida desse povo ficam ainda mais precárias. Essa ação de solidariedade começou pelas enchentes e também vai ajudar a amenizar pelo menos um pouco esta situação”.

A solidariedade e a organização popular se tornam uma das principais armas contra a pandemia

Como maior metrópole do Brasil, São Paulo enfrenta as consequências disso ao vivenciar o epicentro da pandemia do coronavírus. Famílias que historicamente vivenciam as dificuldades provocadas pela falta de planejamento urbano e desigualdades que isso acarreta, diante do cenário atual de retrocessos, agora, vivenciam tudo isso de forma intensificada com a chegada do vírus.

Políticas que não pensam a cidade enquanto parte da natureza, que negligenciam o acesso à moradia, saneamento e distribuição de renda acabaram por favorecer o surgimento desordenado de inúmeras ocupações, favelas e comunidades às margens das barragens e nas zonas de risco abaixo delas. As três regiões onde a ação de solidariedade vai atuar têm algo em comum: a experiência de serem impactadas sistematicamente pelas recorrentes enchentes.

De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz, a letalidade da covid-19 está em 6,8% no Brasil, mas como também lidamos com o problema das subnotificações de casos, devido às desigualdades no acesso à saúde e testagens, este número pode ser 10 vezes maior segundo a FIOCRUZ. As zonas mais afetadas pela covid-19 na cidade estão nas periferias, Brasilândia, zona Norte, e Sapopemba, zona Leste.

Já está comprovado que o vírus é, também, excretado pelas fezes, comprometendo ainda mais as populações que vivem sem saneamento básico. A Fundação SOS Mata Atlântica divulgou em março um estudo que abrangeu 181 trechos de rios e corpos d’água, no perímetro da Mata Atlântica, mostrando que 95% da qualidade do recurso mineral estão comprometidos.

Segundo o IBGE, mais da metade da população brasileira não tem acesso à coleta de lixo e 34 milhões não têm água encanada, escancarando os abismos profundos da desigualdade provocada por um sistema econômico onde a natureza, que não exclui a vida humana, serve como apenas para o consumo.

O MAB questiona a destinação dos recursos e riquezas gerados pelas barragens da zona Sul, a Billings e Guarapiranga, maiores reservatórios de água da região metropolitana de SP.

Ubiratã de Souza Dias, da coordenação do MAB na região ressalta: “a água e energia elétrica gerada pelas barragens são vendidas à população e geram grandes lucros para as empresas que prestam esse serviço, no entanto, não vemos essa riqueza que é gerada aqui retornar em forma de melhorias para as famílias. Inclusive muitas famílias atingidas que moram na beira do reservatório não tem acesso à água tratada e nem a coleta e tratamento de esgoto, situação que estamos considerando na ajuda”.

¹ O Fórum Ecumênico ACT Brasil é formado por 23 organizações baseadas em fé, entre elas, 7 igrejas. Existe há 18 anos com este nome e promove ações pelo Estado Democrático Laico e de Direito, em uma  perspectiva ecumênica de que o nosso planeta e a nossa causa não podem deixar ninguém de fora, todas e todos somos parte do mesmo futuro e Casa Comum.

² O Fórum integra a Aliança ACT, uma coalisão global, que reúne 151 organizações baseadas na fé e igrejas, trabalhando juntas em mais de 125 países.

 

Nota: Qualquer uso de imagem está regulado pela política salvaguardas de crianças e adultos vulneráveis de ACT Aliança e de KOINONIA.