Visibilidade Trans: “Queremos igualdade, respeito e dignidade. Queremos mostrar que nós resistimos”

Edição Natália Blanco/ KOINONIA

O Brasil ainda se mantém como país que mais mata pessoas trans no mundo. E aqui é importante ressaltar que as experiências trans são diversas e são violentamente atacadas em suas vidas, seus cotidianos, subjetividades e atuação na sociedade. 

Na atual conjuntura política e de saúde nesta pandemia o e desgoverno de Jair Bolsonaro, a população trans no Brasil vem sofrendo ainda mais com a perda de direitos recém conquistados e a desatenção para suas demandas nas políticas públicas.

No dia 29 de janeiro de 2004, pela primeira vez na história do país, pessoas trans e travestis foram ao Congresso Nacional expor a realidade da nossa população, tão marcada pelos estigmas e violências do patriarcado, do racismo, da transfobia e de um sistema econômico que elimina as pessoas trans enquanto sujeitos políticos da sociedade.

A seguir leia a reflexão sobre a data pela ativista Thiphany Raphaela, parceira de KOINONIA:

Meu nome é Thiphany Raphaela Lopes, mulher trans e periférica, tenho 27 anos. Atuo como Navegadora de Pares e como Agente de Prevenção levando informação de prevenção para outras mulheres trans e travestis. Atuo nos movimento LGBTQI+ e luto pela igualdade de gênero e direito das pessoas trans, sendo ativista e referência na luta contra o HIV/AIDS na Rede de Jovens de São Paulo. Como mulher trans vulnerável que sofre discriminação e é estigmatizada, quero lembrar a todas/os que o Mês da Visibilidade Trans devemos a todas as pessoas trans que se foram em prol da luta e da igualdade, àquelas que sofreram e/ou sofrem transfobia.

O Dia da Visibilidade Trans representa a luta, a resistência, pois nós, mulheres e homens trans, sofremos diversas violências e sanções, as psicológicas, as físicas, as econômicas etc. Para mim o mais importante é informar e conscientizar a sociedadede como um todo sobre essa data tão importante para nós pessoas trans que vivemos todos os tipos de serceamentos, barreiras e assédios.

Nesta data tão especial, tão querida para mim, quero deixar um apelo: chega de transfobia, chega de matar nossos corpos, respeitem os nossos corpos, respeitem quem nós somos, apenas seres humanos! Queremos igualdade, queremos empregabilidade, queremos mostrar que nós resistimos! Sou uma pessoa trans e eu existo!

Dezembro Vermelho: Juventudes, Sexualidade e Direitos Humanos na enfrentamento a epidemia do HIV

01 de dezembro é o Dia Mundial da Luta Contra a AIDS. A data marca o início do dezembro vermelho, mês que tem como objetivo chamar a atenção para as medidas de prevenção, assistência, proteção e promoção dos direitos das pessoas infectadas com o HIV.

Nos últimos dez anos os novos casos de pessoas infectadas com o HIV na América Latina tiveram um aumento de 20%, passando de 100.000 em 2010 para 120.000 em 2019, é o que mostra o levantamento da OPAS (Organização Pan-americana da Saúde).

A pesquisa mostra ainda que a epidemia atinge majoritariamente homens homossexuais, mulheres trans e profissionais do sexo, representando cerca de 50% das novas infecções.

Na cidade de São Paulo temos dados mais esperançosos, segundo o boletim divulgado pela Coordenadoria de IST/Aids de São Paulo, pela primeira vez na história da cidade de São Paulo, os novos casos de HIV caem por três anos seguidos. “Em 2019, foram 2.946 novos registros, 11,7% a menos do que no ano anterior (3.340). Se a comparação for com 2017, a diminuição chega quase aos 25% (3.889 casos).  As notificações da aids também têm diminuído, com decréscimo ininterrupto desde 2015. Entre 2018 e 2019, a queda foi de mais de 20% (2.033 novos casos para 1.623) e de 30% entre 2015 e 2019 (2.421 para 1.623)” segundo costa na comunicação da Coordenadoria.

O estigma em torno do HIV e da AIDS é um dos maiores entraves na luta contra o vírus, pois o preconceito e falta de acesso a informação faz com que centenas de pessoas desconheçam a sua sorologia. Isso se agrava ainda mais quando, de alguma forma, tem a presença da religião enquanto instituição que dita regras.

Fortalecendo os laços para a construção de pontes de conhecimento

Clique e escute o podcast especial do Prevenidas sobre o Dezembro Vermelho

Ao longo das últimas semanas KOINONIA tem realizado o curso de formação “Prevenidas: Formação em Direitos Humanos, Sexualidade e Prevenção ao HIV e outras ISTs”, que visa debater a o univreso das Juventudes nos temas de Prevenção, Sexualidade e Direitos Humanos. O curso faz parte do projeto de mesmo nome, coordenado por KOINONIA em convênio com a Coordenadoria de IST/Aids de São Paulo.

O Curso que era previsto para acontecer presencialmente, precisou passar por adaptações após o início da pandemia da covid-19. Muitos foram os desafios, mas a formação tem acontecido e está dividida em 6 módulos:

  1. Falando sobre sexualidade: cultura, religião e tabus.
  2. Conhecendo o corpo: afetividade, desejos e sexualidade.
  3. Desejos e prazeres: vamos conversar sobre prevenção?
  4. Sexualidade, raça e direitos humanos: uma questão de direitos.
  5. A saúde como direito: por que defender o SUS?
  6. Pensando a nossa prática nos territórios digitais.

Ramiro Felipe, pessoa trans não binária, 25 anos e graduando em psicologia, afirma que sua experiência na formação tem sido maravilhosa, “sobretudo pela troca com as pessoas”, diz.

“Do meu circulo de amigos eu não conheço ninguém que seja portador de HIV/AIDS. Quando a gente conversa, troca experiências, a gente vai aprendendo sobre os direitos que resguardam, discussões sobre o tema, forma de prevenção. Quando falamos de prevenção para mim é autocuidado”, conclui.

Embora tenha espiritualidade, Giovana não se considera uma pessoa religiosa. Para ela, é muito importante debater a religião e sexualidade em um curso, algo que ela só vivenciou poucas vezes.

Assim como Ramiro, ela é uma das participantes do curso. Psicóloga e estudiosa no que tange a sexualidade, ela acredita que debater religião e sexualidade é de extrema importância, principalmente pela empatia e o respeito. “Pra muita gente no Brasil a religião é estruturante, faz as pessoas seguirem em frente em muitos momentos. E também em muitos momentos dita algumas regras. E claro, envolve a sexualidade. É um campo de discussão”, explica.

A mais nova integrante do curso, Yasmin Santos imaginou que devido a diferença de idade entre ela e os demais participantes fosse deixa-la sem poder de voz, no entanto, Yasmin conta que não foi isso que aconteceu. “Todo mundo me escuta, todo mundo tem a sua voz”, diz.

Paulo Ricardo elogia e valoriza a pluralidade encontrada no curso. Para ele, o olhar multiformado e abordagem de diferentes eixos como sexualidade, direitos humanos, gênero e raça são fundamentais, sobretudo quando se vive em grandes cidades.

“Essa troca de informações e essa pluralidade de pensamentos é fundamental no contexto de formação de nós indivíduos”, explica.

Além disso, ao longo do ano, fomos produzindo outros conteúdos audiovisuais para estimular o debate proposto pelo projeto. Confira:

Campanha de enfrentamento à violência com foco em mulheres evangélicas durante a pandemia da covid-19

 

“Mulher, vai tudo bem contigo?”
 
Essa é a pergunta que norteia a campanha de enfrentamento à violência contra as mulheres evangélicas nestes tempos de pandemia.
 
Fruto de uma parceria entre o projeto Rede Religiosa de Proteção à Mulher Vítima de Violência de Koinonia Presença Ecumênica e Serviço e as Evangélicas pela Igualdade de Gênero, a campanha surge para colaborar com tantas outras iniciativas de enfrentamento às violências contra as mulheres, que principalmente neste tempo de pandemia tem crescido absurdamente.
 
Quantas mulheres em nossas igrejas têm respondido “está tudo bem” mas na verdade tem vivido situaçãoes em que seus lares estão destruídos, sofrendo humilhações, isolamentos, violências. Há mulheres em nossas igrejas que nem são perguntadas se estão bem ou não, não há interesse ou credibilidade, sofrem caladas.
 
Sendo assim, como você pode contribuir?
É simples:
 
A CAMPANHA É FORMADA PELOS SEGUINTES MATERIAIS:
 
Compartilhando,
 
– IMAGENS, que vão servir para que as mensagens circulem facilmente;
– VÍDEOS com Comentários bíblicos para que você perceba como a bíblia pode ser instrumento para a opressão OU libertação.
 
MAS NÃO É SÓ ISSO!
 
Vamos oferecer um pequeno CURSO DE FORMAÇÃO DE ESCUTA ATIVDA para você que deseja aprender como acolher as mulheres evangélicas vítimas de violência pela escuta ativa e empática, além de conhecer a rede pública de enfrentamento e como acessá-la.
 
Para você mulher, que deseja participar do curso, inscreva-se no link:
 
 
Nós cremos que tudo pode ser diferente! É preciso transformação no nosso modo de pensar e de agir!
 
 
Sobre o título da campanha:
 
Nós perguntamos “Mulher, vai tudo bem contigo?” porque fomos inspiradas pelo texto bíblico de 2 Reis 4:8-37, que relata sobre uma Mulher que era da cidade de Suném que ofereceu comida e abrigo ao profeta Eliseu. Nós a conhecemos apenas como Mulher Sunamita porque infelizmente o escritor desse texto bíblico não achou que era importante informar seu verdadeiro nome.
 
A Mulher Sunamita era uma mulher forte, determinada, serena, equilibrada. Ao constatar que seu filho estava morto, leva seu corpo até o quarto do profeta, fecha a porta do quarto e vai ao encontro do profeta.
O profeta ao ver a Sunamita, fala para o moço Geazi perguntar: “ Mulher, está tudo bem com você? Tudo bem com seu marido? E com seu filho?” E olha só, a Sunamita responde: “Está tudo bem”.
 
Neste texto bíblico é possível perceber que a Sunamita respondeu que estava tudo bem, mas estava profundamente angustiada! E o profeta percebeu isso.
 
Claro! Seu filho estava morto!
 
Em nosso país, a cada DUAS horas UMA mulher é morta. Por ser mulher. Nosso país ocupa o 5º lugar no ranking MUNDIAL de países mais violentos contra as mulheres.
 
A EIG e Koinonia vão trabalhar intensamente neste próximo mês para que essa campanha alcance o máximo de irmãs, irmãos e igrejas.
Se você também entende que nós, como cristãs e cristãos, temos a responsabilidade de enfrentar TODO TIPO DE VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES, VOCÊ PODE NOS AJUDAR COMPARTILHANDO ESSA CAMPANHA!

Organizações do Feact-Brasil atuam no fortalecimento da Justiça de Gênero em meio à pandemia da covid 19

Dados da ONU Mulheres apontam que o número de mulheres vítimas de violência está aumentando como resultado da pandemia do novo coronavírus

Coletivo de Comunicação Feact-Brasil

Com vários países adotando as medidas de isolamento social, cerca de quatro bilhões de pessoas agora estão se abrigando em casa contra o contágio global do novo coronavírus. É uma medida protetora, mas que traz outro perigo mortal. Vemos uma pandemia crescente, a da violência contra as mulheres.

Uma em cada três mulheres em todo o mundo já sofreu violência . Os números crescem como resultado da pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2), aponta o relatório “A sombra da pandemia: violência contra mulheres e meninas e Covid-19”. O documento foi divulgado em abril pela ONU Mulheres, entidade da Organização das Nações Unidas para igualdade de gênero e empoderamento.

Em países profundamente desiguais como o Brasil, períodos de quarentena deflagram outras realidades — violações de direitos ainda mais aviltantes no acesso à terra, território, moradia, trabalho, saneamento básico, comunicação e segurança alimentar por parte de populações vulnerabilizadas. A violência de gênero é uma delas.

As mulheres negras estão mais vulneráveis à infecção e aos impactos socioeconômicos da pandemia, visto que elas são a maioria das pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza no Brasil. Mulheres são a maioria trabalhando nas áreas de enfermagem, mulheres são maioria nos trabalhos domésticos, estes, nunca valorizados ou remunerados como deveriam. O racismo e o machismo são vetores de mortes acentuadas pelo cenário da pandemia. Confira a matéria clicando aqui.

Na cidade de São Paulo, houve um aumento no número de prisões em flagrante de violência doméstica — passaram de 177 em fevereiro para 268 em março.

Outro exemplo desse aumento se percebe em Blumenau (SC), onde as ocorrências de violência doméstica subiram 39%. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que houve aumento expressivo de feminicídio dentro de casa em março, em São Paulo (46%), Acre (100%), Rio Grande do Norte (300%) e Mato Grosso (400%). A comparação foi realizada com março de 2019.

A diaconia ecumênica com justiça de gênero alerta as organizações baseadas da fé sobre a urgência de pensar ações que reduzam o sofrimento de mulheres, crianças, adolescentes e pessoas idosas forçadas a viver diuturnamente na presença de seus agressores.

Compartilhamos com vocês algumas ações de enfrentamento à violência de gênero, de emergência e ajuda humanitária por meio deste medium que pode ser acessado em português ou inglês.

Boa navegação!

MEDIUM EM PORTUGUÊS AQUI.

MEDIUM IN ENGLISH HERE.


FEACT Brazil organizations act to strengthen Gender Justice in the midst of the COVID-19 pandemic

Communication from FEACT Brazil

May 8

Data from UN Women suggests that the number of female victims of violence is increasing as a result of the new coronavirus pandemic.

FEACT Brazil Collective Communication

With a number of countries adopting social isolation measures, approximately four billion people are now sheltering at home against the global contagion of the new coronavirus. This is a protective measure, but one that leads to another mortal danger. We are seeing a growing pandemic — violence against women.

One in every three women around the world has experienced violence. These numbers have grown as a result of the new coronavirus (Sars-CoV-2) pandemic, as noted in the report “The Shadow Pandemic — Violence Against Women and Girls and COVID-19”. The document was published in April by UN Women, a United Nations organization for gender equality and the empowerment of women.

In profoundly unequal countries such as Brazil, periods of quarantine reveal other realities — even more appalling violations of the rights of vulnerable populations to access land, territory, housing, work, basic sanitation, communication and food security. Gender violence is one more of these.

Black women are even more vulnerable to infection and to the socio-economic impacts of the pandemic, given that they form the majority of people living below the poverty line in Brazil. Women make up the majority who work in nursing, women make up the majority in domestic work, and are never valued or remunerated as they should be. Racism and sexism are vectors of death accentuated by the pandemic situation.

Click here to check out the report

The city of São Paulo saw an increase in the number of arrests for acts of domestic violence — rising from 177 in February to 268 in March.

Another example of this increase was seen in Blumenau (SC), where the incidence of domestic violence rose by 39%. Data for March 2020 from the Brazilian Forum of Public Security demonstrate a significant increase, compared to March 2019, in femicide within the home in São Paulo (46%), Acre (100%), Rio Grande do Norte (300%) and Mato Grosso (400%).

The ecumenical diakonia for gender justice has warned faith-based organizations about the urgent need to consider actions that reduce the suffering of women, children, adolescents and the elderly forced to live with their aggressors on a daily basis. We would like to share some emergency and humanitarian activities to combat gender violence.

Happy navigating!

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MEDIUM IN ENGLISH HERE.

#8M e as crente

Por Simony dos Anjos, originalmente publicado na   Coluna Féministas

 

 

No dia 8 de março, tive o prazer de ouvir uma belíssima pregação da Reverenda Eliad Santos – na Igreja Metodista da Luz. Nesta palavra trazida a nós no dia Internacional da Mulher, ela nos dizia sobre respeito, direitos e dignidade. Nos dizia de como a verdadeira igreja de Jesus não pode ficar parada frente à homofobia, transfobia, machismo, racismo e, pior ainda, reproduzir e reforçar esse discurso violento que desumaniza quem Deus diz que é sua imagem e semelhança.

Nesta pregação, Eliad nos disse com muita propriedade: “Todos têm medo da epidemia do coronavírus, mas não temem uma das maiores epidemias do Brasil: o feminicídio”. Que devemos nos cuidar em relação às epidemias, não há dúvida. Mas esse mesmo discurso de cuidado não se aplica às populações vulnerabilizadas, como as mulheres negras que são as que mais sofrem violências de gênero.

Segundo o Monitor da Violência do Site G1, houve um aumento de 7,3% nos casos de feminicídio em 2019, em comparação a 2018. Isso significa que uma mulher é morta a cada 7 horas, pelo fato de ser mulher. Um absurdo! Quais medidas o Estado tem tomado contra essa epidemia que mata 3 mulheres por dia?

Logo após esse culto, com o coração cheio de vontade de Justiça, eu pude compor um Bloco denominado: “Mulheres Cristãs pela democracia contra o Governo Bolsonaro”, que marchou na Avenida Paulista junto a tantas outras organizações feministas e movimentos sociais. Marchamos sob o grito de: “Quem é Cristão não apoia a Ditadura, Bolsonaro não é cristão coisa nenhuma”.

Ainda, esse grupo de Cristãs chamou para o ato o texto do Evangelho Segundo a São Mateus que diz: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos. (Mt. 5,6). Compuseram esse bloco nove organizações religiosas cristãs e/ou ecumênicas, da quais 3 são organizações feministas: Evangélicas Pela Igualdade de Gênero; Frente Evangélica pela Legalização do aborto e Católicas Pelo Direito de Decidir (As demais foram: Koinonia; Cristãos contra o fascismo; Rede Ecumênica de Juventude; Frente Evangélica Pelo Estado de Direito; Movimento Negro Evangélico e O amor vence o ódio).

Sim, existem mulheres feministas entre as evangélicas e católicas, porque existem mulheres oprimidas nas igrejas e lares evangélicos e católicos. E onde há uma mulher oprimida sequer, ali o feminismo precisa chegar e florescer. Segundo pesquisa da Datafolha, divulgada em abril de 2019, 32% das mulheres evangélicas se dizem feministas. Não me parece pouco, me parece essencial para que as relações de gênero fundamentadas em uma moralidade cristã e patriarcal sejam derrubadas!

Estou feliz, “o bloco das crentes” foi maravilhoso! Foi potente! E foi melhor, porque estávamos de mãos dadas com nossas irmãs do terreiro, não religiosas  e das demais religiões. Foi lindo, porque estávamos nas ruas #pelavidadasmulheres! E é por ser mulher, que acredito neste diálogo com as mulheres religiosas, de modo geral. Para um Estado Laico, toda a população, religiosa ou não, precisa saber da importância de um Estado Laico para nossas vidas. Que a força feminina seja a força motriz da revolução! Axé!

 

Simony dos Anjos é graduada em Ciências Sociais (Unifesp), mestre em Educação (USP), Doutoranda em Antropologia (USP) e tem estudado a relação entre Negritude, Feminismo e igrejas evangélicas

8 de Março: Contra os fundamentalismos que tentam assolar as (re)existências das mulheres!

Dia 8 de março é o Dia Internacional da Mulher e tem sem firmado através dos anos como um dia de luta, um dia de resistência e denúncia pelo direito das mulheres. A data nos relembra das mulheres trabalhadoras russas que em 1917 se levantaram contra as péssimas condições de trabalho e de vida e deram força para o movimento social que viria a derrubar o governo imperial na revolução daquele país. Ao longo dos anos, foram se somando mulheres de diversos países, em suas manifestações, marchas e greve, agregando as demandas de suas realidades, tendo em comum uma desigualdade estrutural marcada pelo patriarcado e a violência de gênero.

No Brasil, a pauta das mulheres não pode passar ao largo de uma estrutura social marcada pelo racismo desde o tempo da escravidão. E o feminismo negro, das comunidades tradicionais negras – como quilombos e terreiros – nos ensinam que a luta pelo direito das mulheres é a luta da mulher negra no nosso país. E com elas nós temos muito a aprender.
 
Os crimes de ódio, motivados pela condição de gênero, tiveram um aumento significativo em 2019, de 7,3% nos casos segundo os últimos dados divulgados pelo portal G1, com base nos dados oficiais dos 26 estados e do Distrito Federal. Cerca de 40% das mulheres que sofrem violência domésticas são evangélicas, mulheres estas que sustentam muitas vezes as estruturas patriarcais das suas comunidades de fé.
 
Enquanto organização baseada na fé, observamos com temor o crescimento do fundamentalismo que atinge nosso país. A ascensão desses discursos conservadores extrapolou a dimensão religiosa e atinge hoje também a política e a economia, restringindo direitos, diminuindo empregos, assassinando a nossa juventude pobre, preta e periférica. E essa política atinge principalmente as mulheres, que são as que mais sofrem com os cortes na aposentadoria, com a precarização dos empregos e todas essas políticas fundamentalistas neoliberais. O discurso misógino, racista e trans-lesbo-bi-fóbico desse governo também legitima a violência social que tem assassina uma mulher a cada 2h no nosso país.
 
Por isso, o dia 8 de março é dia de ir à rua, fortalecer a luta pela vida e a dignidade das mulheres. Vamos nos juntar as iniciativas de frentes e articulações parceiras de mulheres das mais varias vivências e trajetórias. Mulheres das comunidades de fé, dos terreiros, das igrejas, das comunidades tradicionais, das mulheres LGBTQI+, das mulheres que vivem com HIV e tantas outras vivências.
 
Nas cidades de São Paulo, Salvador e Rio de Janeiro estaremos ocupando as ruas pelo direito das mulheres.
 
Pelo direito de todas nós!
 
#KOINONIApordireitos #8M #justiçadegênero #AtuandoUnidas #actuandounidas

Lançamento: E-book “Fundamentalismos e Meio Ambiente”

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O livro “Fundamentalismos e Meio Ambiente”, organizado pelo teólogo e professor Moisés Coppe, é fruto dos debates gerados durante o seminário de mesmo nome, que reuniu diferentes perspectivas de como pensar o impacto dos fundamentalismos no cuidado com a nossa casa comum, seja no âmbito social ou ambiental. O momento político atual pede por uma compreensão de fundamentalismos que não engloba apenas o aspecto religioso, e sim ideais fundamentalistas também presentes na economia e na política. Fundamentalismos esses que impactam as realidades sociais e ambientais de maneiras atravessadas.

Em outubro de 2019, celebramos em Salvador, Bahia, os nossos 25 anos de presença ecumênica e serviço, promovendo o Seminário “Fundamentalismos e Meio Ambiente”. O seminário reuniu associados e parceiros de KOINONIA de diferentes organizações, movimentos e comunidades e lideranças religiosas. “O seminário acontece em concomitância à celebração do nosso jubileu de prata. Logo após o golpe militar de 1964, pessoas ligadas à extinta Confederação Evangélica do Brasil, atingidas pela repressão militar e eclesiástica, se reuniram para buscar formas de resistência à ditadura recém instalada. Primeiro, no Centro Evangélico de Informação (CEI), depois no Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI) e, finalmente, em KOINONIA – Presença Ecumênica e Serviço”, como relata Paulo Ayres Mattos, presidente de KOINONIA no início da publicação.

A publicação apresenta contribuições a partir de experiências de saberes e de fé, e trazem pontos de vista teológicos e políticos desde suas inserções e críticas aos desafios das situações estruturais de desigualdades, agressões ambientais e raciais. Situações em que os fundamentalismos justificam e aprofundam violações de direitos humanos de toda ordem. Não são palavras finais, mas aproximações críticas, baseadas na fé, de uma intersecção nova – com superações em luta com crueldades – entre fundamentalismos e meio ambiente.

Confira alguns temas abordados pela publicação:

  • Fundamentalismos e meio ambiente: Desafios sempre presentes, por Paulo Ayres Mattos.
  • O fundamentalismo religioso e a política institucional neoliberal no Brasi, por Zwinglio Dias
  • Fundamentalismos e meio ambiente, por Moisés Coppe
  • Por uma ética da “Casa Comum, por Moisés Coppe
  • Humanidade e subversão, por Ogan Lucas Cidreira
  • Resistência aos fundamentalismo, por Pastor Ras André Guimarães
  • Da Ancestralidade ao comprometimento com a vida, por Mãe Mameto Kamurici
  • Ações das organizações baseadas em fé, em Brumadinho, por Rafael Soares de Oliveira
  • Amazônia ameaçada! A ação de Christian Aid, por Sarah De Roure
  • Missão Ecumênica “Águas para a Vida”, por Sônia Mota

Por fim, o e-book também apresenta alguns “apontamentos para o cuidado com o Meio Ambiente e perspectivas críticas aos fundamentalismos”, moderada por Eliane Rolemberg, além de alguns relatos sobre a trajetória de KOINONIA nesses últimos 25 anos na luta contra as intolerâncias e por direitos.

Ao mobilizarmos a solidariedade da comunidade ecumênica, desenvolvemos programas de produção de conhecimento, de informação e de educação, na construção de espaços democráticos que promovem a justiça e os direitos humanos. No marco de um desenvolvimento transformador, seguimos dando continuidade à luta das três instituições que nos antecederam, como KOINONIA.

Durante esses anos temos atuado na defesa de direitos dos territórios das comunidades negras tradicionais (quer dos terreiros de religiões de matriz africana, quer dos remanescentes quilombos), das populações urbanas que vivenciam situações limites provocadas pelo preconceito e pela discriminação: mulheres, jovens e a comunidade LGBTQI+. E a partir deste compromisso ecumênico, proporcionamos reflexões e ações sobre as mais diferentes formas de exclusão e de intolerância, principalmente as religiosas e de gênero. São 25 anos de muitas lembranças que nos movem a seguir em frente, esperançando e caminhando na promoção de direitos contra quaisquer fundamentalismos!

[English] Civil Society denounces fundamentalism that uses gender against Human Rights

 

Members of the Inter-American Commission on Human Rights with the delegation of the Peruvian and Brazilian organizations at the hearing on November 11, 1919

Portuguese version here
Versión en Español

For the first time, the Inter-American Commission on Human Rights (IACHR) is presented with the agenda of gender policies and human rights from the perspective of the advances of fundamentalism in Latin America and the Caribbean.

On November 11, 2019, in Quito, Ecuador, the organizations Peace and Hope and IPRODES, Peru, and Koinonia Ecumenical Presence and Service, member of the ACT Brazil Ecumenical Forum, presented at a public hearing of the Inter-American Commission on Human Rights (IACHR) a report denouncing the danger of anti-rights and hate speech on the Human Rights agenda and the advance of public policies.

The fallacy of gender, called “gender ideology” and the appropriation by fundamentalist discourses, with attention to religious narratives, continues to promote aggravated and advanced setbacks throughout Latin America and the Caribbean. Such as recently in Bolivia, where the Bible and weapons are used to seize the power of a democratically elected government.

Representation in the IACHR was not just from these organizations, but from dozens more, from these and other countries in the region to expose the setbacks that have threatened and violated human rights for several years.

As stated in the presented document, “on recent years, several conservative churches, collectives and religious organizations have made speeches rejecting the concept of gender as a category of analysis, opting to classify it as a mere “ideology”. In this sense, we face a new terminology used by this sector of society to avoid incorporating the gender approach in public laws and policies.”

The aim was to lead and promote reflection on the challenges, norms of good practices in promoting and protecting the rights to education, health and the right to life free from violence, in particular with regard to women, LGBTI + population, children and adolescents; and on issues of gender rights, such as sexual and reproductive rights, in a context in which the political defence of religious fundamentalists is contrary to the rights of these populations.

From left to right: Ronald Gamarra, Sofía Carpio from IPRODES, Peru, Marilia Schüller from KOINONIA and FEACT Brazil and German Vargas, Paz y Esperanza, Peru.

The request for speech during the IACHR Public Hearing was presented by the Peruvian and Brazilian organizations which were represented by Ronald Gamarra, Sofía Carpio of IPRODES, Peru; Marilia Schüller de Koinonia and ACT Brazil Ecumenical Forum; and Germán Vargas of Peace and Hope, Peru.

The public hearing was chaired by Joel Hernandez Garcia (Mexico), member of the IACHR. The following members of the Commission were also present: Margarette May Macaulay (Jamaica), Luis Ernesto Vargas (Colombia), Soledad Garcia Muñoz (Argentina), María Claudia Pulido (Colombia). Regrettably, Brazil’s representation on the Commission was not designated to be present on this Public Hearing.

Marilia Schüller, KOINONIA’s advisor on the institutional and international relations of the Ecumenism and Gender Justice agenda, reports that the Commission welcomed the report presented and expressed that with words of thanks.

“The importance of the right to education of girls, boys and adolescents, and especially of sex education in schools, as part of training for life, was very clear; Also, the continuity of public policies that favour women, children and LGBTI + population that are vulnerable segments in our societies”.

CIDH commissioners present: From the left: María Claudia Pulido (Colômbia), Margarette May Macaulay (Jamaica), Joel Hernandez Garcia (México), Luís Ernesto Vargas (Colômbia) and Soledad Garcia Muñoz (Argentina).

In denouncing and opposing religious fundamentalism, which in our Latin American and Caribbean contexts has been propagated by conservative Christian sectors, Marilia adds: “We emphasized the importance of faith-based organizations contributing to the reflection from a human rights perspective and the affirmation of the secular state”.

The presentation by the organizations’ delegation sought to demonstrate that the region’s scenario cannot be understood from simple observations. It is complex, paradoxical and crossed by several elements. In which conservative discourses use democratic languages, symbols, values and institutions to deny and oppose the human rights that underpin these same institutions.

Which elements are these?

– Opposition to the gender approach through discourse creation and the development of activism based on the fanciful concept of “gender ideology”;
– The new forms of religious participation in the public sphere;
– The tensions between religious-conservative discourse and the approach to rights;
– The impact of the civil-religious agenda on public norms and policies related to human rights;
– Instrumentalization of the right to freedom of belief;
– The insertion of the religious phenomenon in a wider scenario of global de-democratization since the second decade of the 21st century.

Finally, the delegation submitted the following petitions to the Commission:

  1. To develop a regional report on the “impact of religious fundamentalism on the human rights agenda, especially on the rights of children and adolescents”, establishing minimum standards that countries must ensure in these cases of human rights protection.
  2. That the IACHR urge states to guarantee the right to sexual and reproductive education and to the health of children and adolescents by establishing procedures that guarantee their right to participate and respect their autonomy.
  3. That the IACHR remind States of their obligation to take specific measures to modify sociocultural patterns of heteronormative behaviour, including the design of formal and non-formal education programs to combat prejudice and customs, and all other practices based on the premise of inferiority of women and children and adolescents.
  4. That the IACHR remind states of their obligation to guarantee freedom of belief, without affecting other rights, and to guarantee the functioning of services whose denial may endanger the health and life of people.

The organizations that supported the advocacy action were:

1) Peace and Hope Association;

2) Institute for the Promotion of Social Development – IPRODES;

3) KOINONIA Ecumenical Presence and Service;

4) ACT Alliance;

5) Ecumenical Forum ACT Brazil – FEACT Brazil;

6) National Council of Christian Churches of Brazil – CONIC;

7) Ecumenical Service Coordination – CESE;

8) Lutheran Foundation of Diaconia – FLD;

9) PAD – Articulation and Dialogue;

10) Human Rights Monitoring in Brazil;

11) Articulation of Brazilian Women – AMB;

12) Eastern Amazon Forum – FAOR

13) Platform of Social Movements for Political System Reform;

12) SOS BODY – Feminist Institute for Democracy;

13) Brazilian Association of Civil Society Organizations – Abong.

14) ABIA – Observatory of Sexuality and Politics;

15) UNIPOP – Popular University Institute.

Access the full report document here (Spanish)-> Informe – CIDH 11.11.19

 

* The Inter-American Commission on Human Rights (IACHR) is a principal and autonomous organ of the Organization of American States (OAS), whose mission is to promote, protect, monitor, and analyse all human rights-related issues in the 35 member countries of the continent. It is made up of seven independent members who act in person and is headquartered in Washington, DC. It was created by the OAS in 1959 and, together with the Inter-American Court of Human Rights (Corte IDH), established in 1979, is an institution of the Inter-American System of human rights protection (IACHR)

Writer: Natália Blanco/ Koinonia

Translation to English: Marilia A. Schüller/Koinonia

 

Diálogo sobre Orientações Sexuais e Identidades e Expressões de Gênero na África

Foto: Mike Garcia/ WSCF

Artigo: Uma jornada necessária e urgente rumo à uma comunidade afirmativa e inclusiva:
Diálogo sobre Orientações Sexuais e Identidades e Expressões de Gênero na África

Por Natália Blanco*

 

No último mês de julho a Federação Universal dos Movimentos Estudantis Cristãs – FUMEC realizou na capital do Quênia, Nairóbi, África, o segundo Programa Interregional sobre Identidade, diversidade e diálogo (IDD). A iniciativa inédita no cenário dos Movimentos Estudantis Cristãos (MECs) africanos aconteceu durante os dias 10 a 16 de julho e reuniu cerca de 30 representantes dos movimentos de diversos países do continente Africano, Ásia, Oriente Médio, América Latina e América do Norte.

Foram 6 dias de imersão em estudos no Centro de Conferência Desmond Tutu (AACC) pensando novas leituras de textos bíblicos, discussões em grupos, e dinâmicas desafiadoras que nos fizeram refletir. Sem falar nas discussões em pequenos grupos, muito importante para compartilhar o que cada região vem discutindo, ou não, sobre o tema, e como é possível fazer relações com outros contextos.

Fomos inspirades por um grupo de pessoas referência no assunto, que trouxeram provocações riquíssimas para refletir à luz da Bíblia, dos Direitos Humanos e da realidade, qual o papel, como povo ecumênico, estamos exercendo.

Quando concordamos ou nos mantemos em silêncio diante da morte e da opressão de corpos e mentes, a quem o nosso cristianismo está servindo? Temos conosco a imagem de um Jesus que caminhou junto com o povo, que abraçou e foi desafiado pelo grito das pessoas?

Foto: Divulgação / WSCF

E por isso é tão fundamental sermos igreja que caminha. Uma fé que é descolada da realidade de nada serve. Pensando nisso, também tivemos a oportunidade de conhecer 3 organizações no Quênia que de certa forma trabalham com questões relacionadas na periferia da grande Nairóbi. Em especial conhecemos a Nuture Network, uma organização formada por um grupo de jovens migrantes e artistas LGBTQI+ de Ruanda que estão se refugiando no Quênia, em busca de melhores condições de vida.

Tivemos a oportunidade de escutar suas histórias de luta e resistência, pessoas que tiveram o direito à vivenciar a própria família, vida social, fé e qualquer outro aspecto negado em seu país, e por isso estão vivendo como uma organização de mídia independente produzindo conteúdo para redes sociais a fim de conseguirem gerar alguma renda para sobreviverem em comunidade.

Ao final desses dias muito intensos de escuta e diálogo o grupo de IDD da FUMEC Global redigiu uma Carta de posicionamento. Claro que desde o início a proposta do encontro não foi chegar á uma opinião unânime sobre o tema da sexualidade e identidade entre as pessoas participantes, mas como parte de um movimento global de juventudes, iniciar a discussão dentro do contexto africano.

A África é uma região conhecida pelo conservadorismo em relação aos dogmas religiosos cristãos, principalmente se tratando da discussão sobre direitos da população LGBTQI+, e tudo que envolve a diversidade sexual e de gênero. Em muitos países do continente a homossexualidade é ilegal e em alguns lugares, até sob pena de morte. E tudo isso muitas vezes pautado e respaldado pela defesa de valores africanos e sobretudo pelo discurso religioso cristão que condena a “imoralidade”.

Assim como consta na carta produzida pelo grupo, “África é o lar de muitas pessoas LGBTQI+ sofrendo em silêncio como eles não podem vir em público, porque é tabu pela cultura, um crime por lei e considerada um pecado pela igreja. Elas são rejeitadas por suas próprias famílias, a sociedade e até mesmo pela igreja. A maioria dos países africanos tem leis que criminalizam a homossexualidade. Como resultado, as pessoas LGBTQI+ vivem com medo ou se escondem ou fugiram de seus países para procurar asilo em países que são mais seguros.  Vivendo como refugiados, eles também passam por experiências muito traumáticas de leis duras, humilhação pública e ataques. A cultura africana e a Igreja condenam a homossexualidade como um pecado contra os deuses na concepção da criação da humanidade e não acolhendo ou abraçando pessoas LGBTQI+.”

Mas a pergunta interessante que o amigo Alex Chege, membro do MEC do Quênia, faz é: “mas estamos realmente protegendo “valores africanos” ou “valores bíblicos”? Não é irônico que essa mesma religião que estamos “defendendo” quando somos anti  LGBTQI+ não é originalmente africana e é usada por anos e anos como ferramenta para diluir fortemente os valores africanos, seja nas divisões do continente, das culturas e nossas formas de governo?”

É importante perceber como as estruturas de poder se beneficiam com o não avanço das discussões de gênero e sexualidade.

 

Na América Latina

A partir de uma perspectiva latinoamericana , podemos fazer uma reflexão e conexão com a nossa realidade. É claro que a vivência LGBTQI+ na América Latina e Caribe é muito diferente da vivência africana.

Temos visto experiências de igrejas e pessoas que resistem e tem se levantado e se posicionado diante das injustiças e da promoção da vida; outros sopros de teologia estão sendo produzidos e discutidos mesmo com a propaganda anti “ideologia de gênero” que insiste em deslegitimar através do discurso religioso os direitos das mulheres e todas as pessoas que fogem do padrão heteronormativo. Muitas pessoas LGBTQI+ estão reivindicando o direito de viver a fé e caminhar com o Cristo que caminhou com as pessoas.

Mas ao mesmo tempo percebemos que as ferramentas de discurso institucionalizadas usadas para a não promoção de direitos são muito parecidas com o que escutamos na África. Como o discurso conservador, que sempre existiu, vem tomado cada vez mais espaços.

Nossa região vem enfrentando nos últimos períodos, o aumento de recrudescimento de políticas públicas, o avanço do conservadorismo no cenário geopolítico e de discursos religiosos fundamentalistas e radicais, a perseguição contra pautas que signifiquem avanço de direitos como a discussão de gênero e violência, desigualdade social, raça e sexualidade.

A Bíblia é um livro instigante e fazer uma releitura dos textos que ela contém a partir de novos pontos de partida, olhares e perspectivas são fundamentais para entendermos as opressões que nos atravessam e que atravessavam o povo daquela época também. É essencial que nós como juventude ecumênica tenhamos esse discernimento para entender que o cristianismo, “o povo do livro” pode sim, ser usado como instrumento de libertação ou o aprisionamento.

Quênia, Zimbabwe, República Democrática do Congo, Malawi, Zâmbia, Madagascar, Uganda, Ruanda, Nigéria, Canadá, Brasil, Filipinas, Índia, Bangladesh, Austrália, Malásia, Sri Lanka, África do Sul, Reino Unido e Líbano foram os países representados e que se comprometeram a levar adiante este processo de diálogo. Na esperança de construir uma comunidade inclusiva para a justiça e a paz, onde as pessoas de diferentes orientações sexuais e identidades e expressões de gênero e características sexuais sejam afirmadas e celebradas.

A FUMEC ALC também tem iniciado esta jornada de diálogo para ser de fato uma comunidade ecumênica que afirma e celebra a diversidade. México, Colômbia, Cuba, Argentina e Brasil já vem realizando atividades sobre o tema, como rodas de diálogo, ações de incidência pública, ciclos de formação e etc.

No Brasil tivemos a recém experiência do 1º Congresso igrejas e comunidade LGBTQI+ em uma Comunidade Anglicana, realizado pela Paróquia da Santíssima Trindade e KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço. Uma iniciativa de pessoas e organizações baseadas na fé, causando incômodo nos setores conservadores.  Mas a mensagem é única: nosso cristianismo é o cristianismo que caminha com o povo. Nosso cristianismo é o que serve para a vida e não para a morte.

Não é afirmar que abraçamos a diversidade sexual e de gênero somente se eles permanecerem reféns nas mesmas estruturas de poder que os oprime. Não há sentido em acolher e afirmar a diversidade e reprimir outros aspectos de suas vidas. E isso inclui toda experiência dessas pessoas, seja física ou espiritual.

Entendemos que as mudanças virão se dialogar com as pessoas, e  não necessariamente apenas com os líderes das igrejas e movimentos. Temos que ler a Bíblia com o povo, a partir da experiência das pessoas, a partir de uma leitura popular. Sempre questionando se nosso discurso é apenas para poder e reforço de injustiças.

Vemos que a luta dos direitos das minorias, população LGBTQI+, mulheres, migrantes, pobres, indígenas, entre outras, não pode ser possível sem uma interseccionalidade, sem ter a visão de que estas são questões que estão dentro de um sistema econômico que fortalece as desigualdades e falta de oportunidades.

Nós olhamos e entendemos as desigualdades dentro desses temas. E isso passa por uma análise das classes sociais e das relações econômicas de poder. É necessário refletir sobre a situação de vulnerabilidade em que essas pessoas muitas vezes se encontram.

Vemos que não é certo aceitar as pessoas LGBTQI+ em nossas práticas, mas obrigá-los a seguir as mesmas leis, normas e costumes para “caber nas instituições”.  Também é necessário incluir experiências, limites, dores, desejos e sonhos, e reconhecendo nossos erros do passado, para olhar à frente com amor, esperança e empatia.

Entendemos que o segredo para se viver na unidade da diversidade é o diálogo. E um diálogo que abrace à todas as pessoas, um diálogo que construa pontes e não mais muros. Seguimos, ainda mais desafiades a continuar na busca pela justiça e um lugar na casa comum para todas as pessoas.

 

*Jornalista, comunicadora em KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço – ACT Aliança, integrante da Rede Ecumênica da Juventude – REJU, articulando também no movimento das Fé_ministas, Evangelicxs Pela Diversidade e leiga na Igreja Metodista da Vila Mariana – SP.

 

Contraponto: Religiosos progressistas e Comunidade LGBTI+ se unem em congresso e lançam carta frente ao aumento fundamentalismo nas religiões e na política

 

Documento enfatiza que discursos religiosos não devem ser instrumentos de opressão nas vidas LGBTI+ e que a narrativa cristã fundamentalista não é a única possível, entre outras questões.

Acesse a carta na íntegra em: http://bit.ly/CartaIgrejasComunidadeLGBTI   

A carta foi elaborada durante o 1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI+ que aconteceu na Paróquia da Santíssima Trindade IEAB em São Paulo em parceria com KOINONIA Presença Ecumênica durante o feriado de Corpus Christi.

O documento que marca um posicionamento político, é assinado por pessoas das mais diversas igrejas e comunidades de fé e traz como proposta a afirmação de “pessoas lésbicas, gays, bissexuais, assexuais, travestis, transexuais, não binárias, intersexo, queer e outras expressões de gênero” frente às diversas religiosidades e comunidades de fé, além de denunciar experiências de exclusão e opressão contra essas pessoas.

No momento em que a sociedade brasileira vive um governo pautado e guiado por uma moral religiosa, o crescimento dos fundamentalismos religiosos acentua discursos contra a diversidade sexual e de gênero.

Por isso, a carta propõe um alerta à sociedade para a situação de vulnerabilidade da população LGBTI+ trazendo para o debate as questões dogmáticas de comunidades cristãs que em geral tendem a excluir e reforçar as vulnerabilidades e silenciar essas pessoas.

“Lamentamos e denunciamos que, como estratégia para alcançar representatividade, muitas lideranças políticas e midiáticas do campo religioso, sobretudo entre cristãos, estejam se apropriando e instrumentalizando o imaginário e a linguagem religiosa e teológica para produzir e disseminar pânico moral, ressentimento, medo e ódio a partir de expressões como “ideologia de gênero” e reforço da ‘hombridade’”, consta no documento.

Pessoas de diferentes partes do Brasil e de outros países como Estados Unidos, Argentina, Paraguai passaram por 3 dias de debates e mesas no 1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI+. Temas como representatividade política, epidemia de HIV/ Aids, políticas públicas, acolhimento nas igrejas, experiências de resistência e leituras bíblicas a partir de outras teologias, foram abordados.

Com cerca de 200 participantes em média, e encontro reuniu não apenas pessoas leigas e lideranças do mundo religioso como protestantes, católicas, evangélicas pentecostais e neopentecostais, adventistas, budistas, lideranças de religiões de matriz afro e afrobrasileira mas também representantes da política como a deputada estadual Erica Malunguinho e Renato Simões, movimentos sociais e também pesquisadores/as da temática.

 

Bloco Interreligioso chamou a atenção na Parada do Orgulho LGBTI+ em São Paulo

No domingo, 23 de junho, grupos que participaram do congresso se juntaram a outras frentes religiosas para compor o bloco “Gente de Fé Contra a LGBTfobia”na Parada LGBTI+ na Paulista.

Carregando uma faixa com o nome do bloco, religiosas e religiosos paramentados eram aplaudidos e cumprimentados por muitas pessoas que viam o grupo passar. Atrás dos representantes.

A ideia surge também a partir da necessidade do resgate dessa espiritualidade LGBTI+, especialmente ao relembramos este ano os 50 anos de Stonewall, como a história da ativista trans Sylvia Rivera, que ao lado de Marsha Johnson foram destaques na noite de Stonewall. O que a história muitas vez não conta é sua trajetória como membra e coordenadora na Igreja da Comunidade Metropolitana ICM (Metropolitan Church Community, primeira comunidade cristã denominada inclusiva.

O Rev. Alex Silva Souto da Igreja Metodista Unida dos Estados Unidos, que participou de uma das mesas do congresso e caminhou com bloco na parada, destaca “Se a comunidade LGBTQIA+ tiver experiências positivas com comunidades religiosas, e vice versa todos ganharemos com isso. Como disse Rev. Dr. Martin Luther King Jr., “ninguém é livre até que todos estejam livres “, não há paz e liberdade sem justiça, e amor que é amor de verdade é incondicional além de palavras baratas”.

Para o Reverendo Budista Tetsuji do movimento Rainbow Shanga, “notamos muito a expressão de surpresa, emoção e apoio de muitas pessoas durante a caminhada e que nunca imaginariam em uma festa linda uma marcha de protesto contra a lgbtfobia por religiosos, ao mesmo tempo afirmando que há sim outras formas da população LGBT+ expressar suas religiosidades”.

Mais sobre o 1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI+:
http://bit.ly/CongressoIgrejasComunidadeLGBTI

Nas redes sociais: confira a hashtag #IgrejasEComunidadeLGBTI

Evento do Congresso no Facebook (com mais fotos): http://bit.ly/EventoCongresso

Evento do Bloco da Parada no Facebook (com mais fotos):  http://bit.ly/BlocoGenteDeFeContraLGBTFOBIA