Ato inter-religioso homenageia mães de vítimas do genocídio da juventude negra em São Gonçalo

Foto: Pedro Rebelo

Um momento de fé e reflexão sobre a necessidade de transformar o luto em luta marcou a tarde da última sexta-feira (23) no centro de São Gonçalo (RJ).

“a.FÉ.to”, uma celebração inter-religiosa em homenagem às mães negras de meninas e meninos vítimas do genocídio da juventude negra, reuniu diversas lideranças.

Uma delas era Mãe Juçara de Iemanjá, Ialorixá do Ilê Asé do Ogun Já, uma das organizadoras do evento. “Chegou a hora das religiões orientarem seus fiéis para questões como o racismo que é uma ferida aberta em nossa História. Vem dele a Intolerância Religiosa contra as religiões de matriz africana e vem dele o extermínio da juventude negra nas periferias. A dura da polícia, o segurança seguindo no supermercado, está tudo conectado. E como o povo brasileiro é um povo de fé, ninguém melhor que o sacerdote, seja ele qual for, para orientar nossa população”, destacou.

O colaborador de KOINONIA, Pedro Rebelo, lembra que São Gonçalo não possui políticas efetivas de combate ao racismo e igualdade racial, apesar da maioria da população ser negra. “Esta celebração é um marco na cidade e um recado muito importante para que a juventude negra viva com qualidade e que ninguém seja perseguido em função da sua fé, principalmente as pessoas que desenvolvem sua fé em um terreiro, e não em uma igreja”, afirmou.

Idealizado pelo atual presidente do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro e Promoção da Igualdade Racial e Étnica no Município de São Gonçalo (Comirsg), Luís Backer, o projeto teve a parceria de KOINONIA.

 

 

Uma carta à Campanha da Fraternidade Ecumênica -Diálogo: compromisso de amor. Cristo é a nossa paz!

Diante do caos pandêmico e político em solo brasileiro nos perguntamos: é possível outra realidade com paz, justiça e garantia de direitos humanos, sociais e ambientais? Honestamente, parece que não! A impressão que temos é que há um projeto de poder articulado com setores fundamentalistas religiosos negacionistas que preferem armas no lugar da vacina. Preferem agendas do agronegócio a práticas da economia solidária e da agricultura familiar e agroecológica. Preferem o privilégio dos homens brancos à resistência de mulheres indígenas, quilombolas e negras. Preferem uma visão de mundo europeizada-americanizada dicotomizada à imersão na integralidade corpo-natureza dos povos tradicionais e originários. Preferem os mitos gregos ao panteão africano. Preferem muros a pontes. Preferem julgar e condenar a acolher e abraçar.

Estamos em profundo cansaço! Está muito difícil esperançar! Como sugere Edson Gomes (cantor de reggae do recôncavo baiano), “a lua não é mais dos namorados – os velhos já não curtem mais as praças”. Uma nação dilacerada pela dor, pelo luto, pela ausência de teto, pão, trabalho e amor. Com efeito, experimentamos um tempo que exige de nós cada vez mais capacidade de resistir para recriar.

É importante ressaltar que nossas lágrimas no exercício da alteridade e da empatia também regam possibilidades de novas sementes. Reafirmamos nesta complexidade dos fenômenos religiosos a relevância das vozes produzidas por setores ecumênicos e progressistas. Vozes em defesa da vida em suas múltiplas maneiras de existir. Tradições religiosas que no escritório, no templo, no terreiro, no sindicato, na universidade, nas redes sociais e na ONG buscam uma espiritualidade diaconal, afetiva, libertadora, emancipatória e humana.

De fato, seja com a mochila nas costas e o tênis sujo de barro, essas mulheres e homens que compõem essas instituições buscam através de uma escuta sensível compreender e estabelecer estratégias de superação de violências que sangram corpos (principalmente) afro-indígenas de mulheres em nossa nação. Muitas incidências são produzidas em defesa da vida ameaçada, banalizada, objetificada e animalizada por políticos-religiosos ilusionistas da moralidade e missionários do terror.

Não iremos naturalizar a morte como se vidas fossem números. Não iremos nos calar e nem nos omitir diante da nuvem cinzenta que nos impede de ver o sol e um novo dia. Iremos de mãos dadas continuar o grande mutirão da beleza, da poesia e da humanização. Silêncio dos bons? Aqui não! Junto aos sinos, violões e atabaques escutamos e produzimos sons para a grande festa do abraço, pois, nela haverá uma grande mesa da diversidade onde iremos sorrir, beber, comer e brincar.

Enquanto esse dia não chega, nós nos fortalecemos com fé e cuidado mútuo. O rosto do divino é também rosto humano diverso, é terra, território e muitos povos. É cuidando de alguém e de nós mesmos que percebemos a face amorosa do mistério divino que nos acolhe no colo e sussurra em nossos ouvidos: estou com você! Não tenha medo! Finda a tempestade o sol nascerá. Com efeito, nossa gratidão às muitas mãos disponíveis para denunciar injustiças e anunciar através da fé e do compromisso, uma outra realidade. Animem-se mais uma vez, pois, como sugere Belchior: tenho sangrado demais – tenho chorado pra cachorro – ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.

Embora dizem que a CFE finaliza na Páscoa, para nós, do Movimento Ecumênico, no domingo da Ressurreição ela se fortalece, porque é pela Ressurreição que compreendemos que a violência não vence o amor incondicional de Deus pela Criação.

                  

                   Fórum Ecumênico ACT Brasil, 26 de março de 2021

As ciências, as curas e os cuidados – enfrentando os fundamentalismos

 

Vivemos no país hoje o ponto mais alto de contágios e mortes causadas pelo coronavírus. Se por um lado temos finalmente a perspectiva da vacinação que poderá levar o país à imunização, o caminho que nos trouxe até aqui não foi linear.

Veja ainda: Fundamentalismos, crise na democracia e ameaça aos direitos humanos na América do Sul é tema de pesquisa publicada por Koinonia


O negacionismo e a desinformação, que trazem por detrás interesses políticos específicos, semearam dúvidas e falsos tratamentos entre a população. Desde a compra e produção da hidroxicloroquina por parte do Governo Federal, o “kit covid”, a “gripezinha” e os feijões mágicos, esse discurso teve especial permeabilidade entre alguns grupos religiosos.


O fundamentalismo que se expressa de diversas formas, também tem a sua contribuição no fortalecimento de visões negacionistas que hoje causam mortes em nosso país.

Como grupo de jovens ecumênicos, inter-religiosos e interfé, nos reunimos neste espaço de trabalho para identificar, refletir e pensar em forças de ação frente ao fenômeno multiforme do fundamentalismo. Te convidamos para nos ajudar nessa reflexão.

No dia 31 de março, às 19h, estaremos reunidos via Zoom com Alana Moraes: Doutora em antropologia pelo Museu Nacional (UFRJ), pesquisadora do PimentaLab (Unifesp); Yury Orozco: teóloga feminista sob a Mediação: Angelica Tostes: teóloga feminista, interfé e pesquisadora do Instituto Tricontinental,  neste projeto coordenado por Daniel Souza e KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço.

Apresentamos algumas de nossas perguntas norteadoras:
a. Na pandemia, quais os sentidos e a quem/como serve o negacionismo científico e a desinformação?
b. Há possibilidades de conexões e vínculos entre os saberes técnico-científicos e a gramática “simbólico-religiosa”?
c. Quais os métodos científicos e quais os modos de fazer ciência?
d. Como aprender de outras ciências, outras visões de mundo e outras práticas de cura/cuidado que estejam para além das lógicas modernas?
e. Nas relações entre cura e cuidado, o fundamentalismo e o negacionismo se mostram como um espaço de segurança e circulação de afetos?
f. Quais as vinculações entre movimentos baseados na fé e as mobilizações (na pandemia e antes dela) para a garantia de uma saúde pública, universal, gratuita e de qualidade?
g. Nas relações com a ciência moderna (saber técnico-científico), quais os jogos, os usos e as instrumentalizações dos fundamentalismos?

 

Venha participar conosco dessas duas horas de reflexão e trabalho.

Serviço:

As ciências, as curas e os cuidados – enfrentando os fundamentalismos
Encontro para debate e formação

📌 Dia 30 de março às 19 horas (Brasília)
📲 Inscrições em: bit.ly/CienciasCuidados