Presidente de quilombo no Rio de Janeiro sofre ameaças por causa da vacina de combate ao coronavírus

Foto: Ricardo Alvez

Por Luciana Faustine

Foi na companhia da cunhada, mãe e sobrinhos que Rosiele Vasconcelos, de 33 anos, Presidente do Quilombo de Sobara, localizado no município de Araruama, no Rio de Janeiro, estava quando um grupo de cinco pessoas bateram à sua porta para reivindicar o direito de tomar a vacina de combate ao coronavírus, destinada a pessoas pertencentes a comunidades quilombolas. 

Os três homens e duas mulheres que compunha o grupo são pertencentes à comunidade do Remo, uma comunidade vizinha ao quilombo, construída dentro de uma área de sítio, e composta por cerca de 100 famílias, que não moram e não têm parentesco com os moradores do território negro. Porém, ambas as comunidades estão cadastradas no mesmo posto de saúde, local em que a vacina é aplicada.

Quilombo de Sobara. Foto: Arquivo pessoal

O fato de estarem cadastrados no mesmo posto, como conta a líder comunitária, fez com que os moradores do Remo reivindicassem o direito à vacina, que na fase em questão, é destinada a comunidades quilombolas, comunidades indígenas, idosos, profissionais de saúde e idosos em instituições de longa permanência.

 

“Antes da vacina chegar, a enfermeira do posto de saúde me procurou para eu mostrar as áreas quilombolas. Eu mostrei e perguntei se precisava de lista, ela falou que não precisava de lista, daí eu mostrei as áreas que ficam dentro da comunidade de Sobara. Essas pessoas que vieram me procurar são pessoas que moram vizinhas à comunidade, eles não moram dentro da Sobara”, conta Rosiele.

Ameaças em redes sociais

Após a ida à casa de Rosiele, as cobranças se estenderam para as redes sociais, em que os moradores vizinhos utilizaram grupos da cidade no facebook para responsabilizá-la pela falta da vacina.

Nas mensagens, que foram printadas por Rosiele e guardadas como provas das cobranças, moradores marcam a líder comunitária, mencionam o Ministério Público, dentre outras instituições governamentais, e dizem que ela está escolhendo as pessoas que serão vacinadas, e que eles querem ter seu direito preservado, pois, segundo eles, “Rosiele só privilegia os dela”.

Já Rosiele, afirma não saber o que eles querem dizer exatamente com a frase do privilégio, visto que não somente sua família teve acesso à vacina, mas sim toda a comunidade.

“Eu fico sem saber a que eles estão se referindo. Eles disseram nas mensagens que eu só privilegio os meus, mas não sei quem são os meus, porque a vacina não foi só para a minha família, a comunidade inteira teve acesso”, questiona.

Quilombo de Sobara. Foto: Arquivo pessoal

Em uma das mensagens, uma moradora diz: “não se esqueça que tem como provar porque as listagens com os nomes das pessoas que foram vacinadas foram registradas, tá, dona presidente, quando o Ministério Público vier investigar, vai ver que tem pessoas que não têm nada a ver com o município tomando vacina”. “Ela erra e agora está se fazendo de vítima”, responde uma segunda moradora.

 

Em outra postagem, uma terceira moradora diz concordar que os quilombolas têm direito, porém, segundo ela, “Rosiele está escolhendo quem irá ser vacinado”.

Outro morador, que teve sua publicação compartilhada dezenas de vezes, marca a página Fala Araruama e diz que após ir até o posto de saúde e não conseguir ser vacinado, procurou por Rosiele, que não permitiu que ele tomasse a vacina.

Páginas como o Portal R7, Portal RC24h, Ibama, Equipe Comunica são marcadas como forma de chamar atenção para o caso. Coagida, Rosiele utilizou a sua página para afirmar que foram à sua casa lhe cobrar, ao que foi respondida que não há ameaças, mas sim a “cobrança de um direito”.

“É fácil demais errar e depois se vitimizar. Independente de sermos ou não quilombolas, assim como você e sua família, somos seres humanos”, respondeu uma das moradoras.

Rosiele explica que durante o período em que somente os idosos foram vacinados não houve problema, contudo, quando a vacinação passou para os mais jovens começaram as reivindicações. Ela conta que os dois primeiros dias de vacinação ocorreram diretamente no quilombo, e que quem não conseguiu se vacinar nesses dias passou a tomar no posto, momento em que as ameaças começaram a acontecer.

“Eu me sinto ameaçada porque eles expõem o meu nome para muitas pessoas, e as pessoas aqui me conhecem e sabem que eu sou liderança. Eles falam que sobrou vacina e eu não deixava aplicar neles. Eu nem sabia que estava sobrando dose da vacina”, conta ela, que ressalta que as doses que sobram são devolvidas pela enfermeira responsável pelo posto de saúde, juntamente com a lista contendo os nomes de quem foi vacinado e a quantidade restante.

Quilombo de Sobara. Foto: Arquivo pessoal

“Eu não mandava em nada disso, apenas às vezes a enfermeira não conhecia a pessoa e me ligava para saber se era da comunidade, mas como a turma do Remo ela sabe que não é. Então quando foram procurar ela para tomar a vacina, ela mandou me procurar. Daí eu falei que nesse momento eles não poderiam tomar porque é específico para quilombolas. Eles chegaram na minha casa dizendo que queriam a vacina deles, eu me senti encurralada. Eles queriam a vacina deles, sendo que eles não são quilombolas”, finaliza.

Um direito garantido em lei

 A lei nº 14.021, de 07 de julho de 2020, dispõe sobre medidas de proteção social para prevenção do contágio e disseminação da COVID-19 nos territórios indígenas. Ela ainda estipula medidas de apoio às comunidades quilombolas e demais comunidades tradicionais.

De acordo com a lei, as comunidades quilombolas são grupos de alto risco porque estão em situação de extrema vulnerabilidade, “por isso estão dentro dos grupos prioritários para a vacinação”, conta a advogada Camila Chagas, que presta serviço de assessoria jurídica para comunidades negras tradicionais assistidas por KOINONIA.

Camila explica que ainda que os moradores das duas comunidades estejam cadastrados no mesmo posto de saúde, e que elas sejam vizinhas, isso não significa que as duas estejam dentro da mesma situação jurídica, pois apenas uma delas é quilombola.

“As comunidades quilombolas possuem características culturais próprias que as diferenciam de outras comunidades rurais. Todos são iguais perante a lei, mas nem todos estão na mesma condição, por isso é necessário tratamento diferente aos grupos que são diferentes”, afirma Camila.

A advogada ressalta que, no direito, trata-se da aplicação do princípio da isonomia, princípio que garante a igualdade de oportunidades a todos, mas considera as condições diferentes das pessoas.

“Pela lei, os quilombolas são considerados como grupos em situação de extrema vulnerabilidade e, por isso, são destinatários de ações específicas como a campanha de vacinação”, explica.

Ela ainda ressalta que a prioridade na vacinação de quilombolas está prevista devido ao fato de a lei reconhecer a diferença dos impactos da pandemia nas comunidades tradicionais, fazendo com que essa prioridade não seja um privilégio, mas uma ação de defesa daqueles que estão em situação de extrema vulnerabilidade.

“Estamos atravessando a pandemia de Covid-19 com muitas dificuldades em razão da postura inicial do Estado brasileiro, que deixou de adotar medidas que poderiam evitar a morte de milhares de pessoas. Infelizmente ainda não há vacina para todos e, por isso, o governo tem vacinado inicialmente os grupos prioritários, porque possuem maior risco de contrair a doença e desenvolver complicações”, conclui.

Monitoramento de Aplicação de Doses

Em seu site, a prefeitura de Araruama divulgou um Monitoramento de Recebimento e Aplicação de Doses da Vacina COVID 19, no qual consta o número de doses recebidas e quais populações foram vacinadas. De acordo com o documento, até a data de 27 de abril, foram recebidas 45.415 doses, somando a Coronavac e a Astrazeneca. Dessas, durante a primeira fase de aplicação, foram destinadas às comunidades quilombolas 347 doses da Astrazeneca e 63 doses da Coronavac, um total de 410 doses.

Além dos quilombolas, durante a fase 1, foram vacinados com a Astazeneca 1.630 profissionais de saúde, 288 idosos em instituições de longa permanência, 7.146 idosos, 27 pessoas com deficiências acima de 18 anos em residências inclusivas e 2 profissionais de segurança e salvamento.

Já com a Coronavac, também durante a fase 1, além dos quilombolas, foram vacinados 1.503 profissionais de saúde, 109 idosos em instituições de longa permanência, 13.617 idosos, 135 profissionais de segurança e salvamento.

Durante a fase 2, foram vacinados com a Coronavac um total de 11.856 pessoas, porém, dentre elas, até o momento do fechamento desse texto, não estavam incluídos o número de pessoas com deficiência, população indígena e comunidades quilombolas.

Com a vacina Astrazeneca, também durante a fase 2, não constam os números referentes às pessoas com deficiência, população indígena e comunidades quilombolas. Nessa fase, foram vacinadas com a Astrazeneca um total de 828 pessoas.

O monitoramento completo divulgado pela Prefeitura de Araruama pode ser consultado no link: Monitoramento de Recebimento e Aplicação de Doses Vacina COVID 19.

Retrospectiva 2020: ano que nos desafiou, mas não nos impediu!

 

2020 entrou para a história como o ano em que o mundo parou por causa da pandemia de coronavírus, e com isso, inúmeras adaptações foram impostas às organizações sociais.

Planos, projetos e ações previamente organizadas foram adaptadas para o “novo normal”, e ações oriundas da nova realidade tiveram que ser incorporadas nas frentes de trabalho.

Em uma nova realidade, Koinonia Presença Ecumênica e Serviço permaneceu na atuação a partir do ecumenismo e do diálogo inter-religioso, no combate às intolerâncias e opressões impostas pela conjuntura, que mesmo em meio a pandemia não deram trégua.

Permanecemos na luta pelos direitos das mulheres e promovendo o debate sobre as questões da comunidade LGBTQIA+. Da mesma forma, seguimos fortemente junto às comunidades negras tradicionais, possibilitando, inclusive, conexões de solidariedade em um momento em que fragilidades sistêmicas, econômicas e sanitárias impuseram tantas necessidades básicas.

Após estes quase 365 dias de 2020 nos sentimos orgulhosas/os do trabalho que conseguimos fazer até aqui, e compartilhamos uma breve retrospectiva de nossas ações, com o desejo de que o próximo ano nos possibilite fazer ainda mais do que fizemos e fazemos. Desejamos um 2021 com mais esperança para os povos latino-americanos, e claro, muita organização de nossas lutas populares e agendas contra os fundamentalismos.

Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso

Semana de afirmação da liberdade religiosa 2020

Janeiro é um mês de luta para KOINONIA, temos o dia 21, Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, e assim, começamos o ano com ações que visam combater a intolerância e celebrar os 20 anos de Memória Ancestral de Mãe Gilda, Ialorixá do Ilê Axé Abassá de Ogum, que inspirou a criação desta data. No ano de 2000, Mãe Gilda enfartou após sucessivos ataques contra seus filhos de santo, provocados pelo racismo religioso. As celebrações do marco contaram com atividades em várias partes do país.

Confira a semana de afirmação da liberdade religiosa 2020 de KOINONIA

No Rio de Janeiro, KOINONIA participou do III Seminário Sobre Liberdade Religiosa, Democracia e Direitos Humanos. Participou também da vigília Inter-religiosa, realizada na Cinelândia, evento que teve a participação de líderes e pessoas leigas de várias religiões, com ou sem religião.

Em Salvador a agenda foi intensa. Começando com a homenagem no busto de Mãe Gilda, localizado na Lagoa do Abaeté, bairro de Itapuã. O evento contou com a participação de lideranças religiosas do candomblé, umbanda, cristãs entre outros segmentos. Posteriormente houve uma roda de conversa para debater o tema, realizada no terreiro Ilê Axé Abassá de Ogum em que KOINONIA teve participação. Houve ainda um debate e uma Missa na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e uma roda de conversa sobre Racismo Religioso, realizada no Espaço Cultural Vovó Conceição.

Já em São Paulo aconteceu o Ato histórico de Celebração Inter-religiosa na Igreja Betesda de São Paulo. KOINONIA esteve a frente da organização do ato, e a igreja que é conhecida no mundo evangélico pela liderança de Ricardo Gondim abriu as portas pela primeira vez para um ato como este. Lideranças religiosas e não religiosas, pessoas das mais diversas tradições estiveram reunidas para demarcar a importância da data do 21 de janeiro.

Evento de encerramento de Christian Aid no Brasil

Em março, pouco antes do início da quarentena, ainda em uma realidade que permitia aglomerações, participamos do evento que marcou o encerramento das atividades da parceira Christian Aid no escritório do Brasil. Foram anos de parcerias e projetos em conjunto, encontros ecumênicos compartilhados e uma história na busca por um mundo mais justo e igualitário.

Também em março, houve a participação no encontro que discutiu o papel das comunidades cristãs no cenário político. O encontro foi realizado na ICM São Paulo – Igreja da Comunidade Metropolitana de São Paulo.

Parceria MAB e KOINONIA na ajuda emergencial da ACT Aliança

Já em meio à pandemia, KOINONIA iniciou o projeto de ajuda emergencial da ACT Aliança, representando o Fórum Ecumênico ACT Brasil. O projeto realizado nas periferias de São Paulo com nosso parceiro local MAB – Movimento de Atingidos por Barragens, teve como objetivo ações de solidariedade por meio de cestas básicas e assessoria do MAB à famílias atingidas por enchentes recorrentes. Foram doadas 2 mil cestas com alimentos e artigos de higiene e limpeza, distribuídas para famílias de São Paulo e Baixada Santista.

Publicação debate Fundamentalismos e crise na América Latina

Também publicamos o livro “Fundamentalismos, Crise na Democracia e Ameaça aos Direitos Humanos na América do Sul”, de autoria da jornalista, doutora em Ciências da Comunicação e associada de KOINONIA, Magali Cunha. A obra é fruto de uma pesquisa que investiga os processos e dinâmicas dos fundamentalismos na Argentina, Brasil, Colômbia e Peru. E pode ser baixado gratuitamente.

Fórum Ecumênico ACT Brasil e Fóro Ecuménico Sur

Participamos de encontros e reuniões de articulações com o Fórum Ecumênico ACT Brasil, que realizou seu encontro anual virtualmente; e da consolidação do Foro Ecuménico ACT Sur que chega para fortalecer as relações ecumênicas na região. Foram notas, pronunciamentos, e ações de incidência virtual para juntas/os pressionarmos os atores da conjuntura que promovem as políticas de morte e aniquilação dos nossos povos.

EAPPI Brasil na defesa do povo palestino

Nos somamos à Campanha Não à Anexação, junto a organizações ecumênicas e igrejas que enviam voluntários para servirem como Acompanhantes Ecumênicos (EAs) na Palestina e Israel no Programa Ecumênico de Acompanhamento, o qual coordenamos aqui no Brasil, para posicionarmos contra a anexação unilateral de terras palestinas ao Estado de Israel.

Diálogos Ecumênicos Pela Amazônia

Também estamos lançando o portal Diálogos Ecumênicos Pela Amazônia, em português, inglês e espanhol, fruto de um projeto que leva o mesmo nome, coordenado em parceria com o Centro Regional Ecuménico de Asesoría y Servicio  – CREAS, visando o fortalecimento de iniciativas ecumênicas e inter-religiosas pela dignidade dos territórios amazônicos no Brasil, Bolívia, Colômbia e Peru. Por meio de análises compartilhadas e ações conjuntas, para promover a defesa da Casa Comum em parceria com movimentos sociais, organizações indígenas e quilombolas; bem como denunciar as violações de direitos e ameaças sofridas por comunidades tradicionais no controle sobre a terra e seus bens comuns.

Direitos das Mulheres e Comunidade LGBTQIA+

FEACT Brasil e justiça de gênero

Em países profundamente desiguais como o Brasil, períodos de quarentena deflagram outras realidades — violações de direitos ainda mais aviltantes no acesso à terra, território, moradia, trabalho, saneamento básico, comunicação e segurança alimentar por parte de populações vulnerabilizadas. A violência de gênero é uma delas. A diaconia ecumênica com justiça de gênero alerta as organizações baseadas da fé sobre a urgência de pensar ações que reduzam o sofrimento de mulheres, crianças, adolescentes, pessoas idosas e LGBTQI+ forçadas a viver diuturnamente na presença de seus agressores. Neste sentido o Fórum Ecumênico ACT Brasil sistematizou algumas experiências no enfrentamento à violência, emergência e ajuda humanitária.

KOINONIA e Evangélicas Pela Igualdade de Gênero

Este ano também fortalecemos a parceria com o coletivo Evangélicas pela Igualdade de Gênero, realizando na Igreja Metodista na Luz a roda de diálogo inter-religioso em virtude do 8 de MarçoTeologia é Coisa de (Toda) Mulher”, tema que norteou as atividades conjuntas ao longo do ano, sobretudo com o Curso online e Campanha de Escuta Ativa e Empática: “Mulher, vai tudo bem contigo?”. Foram lives, postagens e até uma Formatura do curso e lançamento da cartilha de Formação, que marcou o  encerramento dos 21 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres e o dia Internacional dos Direitos Humanos.

Fluxo Solidário

KOINONIA também foi parceria da iniciativa coletiva Fluxo Solidário, que consistia na montagem e entrega de kits com absorventes e itens de prevenção sexual para mulheres e pessoas que menstruam.

Juventudes, Sexualidade e Direitos Humanos – Prevenidas!

Prevenidas! Esse foi o nome dado ao projeto que trata de juventude, sexualidade e direitos humanos, com foco na prevenção ao HIV e Outras ISTs. O lançamento aconteceu no dia 20 de fevereiro, quando recebemos em São Paulo um grupo de referência em assuntos ligados à prevenção, direitos humanos e acesso à saúde.

O projeto é conveniado com a Coordenadoria de IST/Aids da Cidade de São Paulo, ao longo do ano promoveu a Formação em Direitos Humanos e Prevenção ao HIV e outras ISTs, em que foram debatidos diversos assuntos sobre o tema. Além disso, produzimos em nossas redes sociais postagens informativas sobre prevenção, além de lives e podcast que tiveram o intuito de orientar e combater o preconceito e a desinformação.

Julho das Pretas

O mês de julho também foi recheado de atividades, com o Julho das Pretas, em que chamamos parcerias de Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo trazendo mensagens de força, resiliência e resistência, celebrando as mulheres negras de nosso país e América Latina. Foram séries de vídeos e encontros online trazendo temas como racismos, direitos das mulheres, e a potência do afeto enquanto revolução para o povo preto. Também celebramos junto às nossas companheiras, os 8 anos da Rede de Mulheres Negras da Bahia. Além disso lançamos a edição nº 41 do informativo Fala Egbé, com textos reflexivos e matérias sobre o eixo que atua no direito das mulheres e comunidades negras tradicionais.

Comunidades Negras Tradicionais

Fala Egbé – informativo dos territórios negros

Com as comunidades negras tradicionais do Baixo Sul da Bahia, inovamos ao construirmos o projeto de podcast do Fala Egbé, programa em áudio que procuramos trazer para este formato as experiências de mulheres e pessoas das comunidades negras tradicionais. Em 4 programas, as mulheres falaram sobre saberes ancestrais, política, territórios negros, identidade e racismo , além de comentarem temas que circundam o dia a dia delas e da sociedade como um todo.

Como citamos no item anterior, na nova edição do informativo Fala Egbé nº 41, jornal digital, abordamos os eventos ocorridos em memória dos 20 anos de morte de Mãe Gilda, falamos sobre as experiências das comunidades quilombolas no combate à COVID-19, refletimos sobre o conceito de Territórios Negros e também homenageamos Seu Antônio Correia dos Santos, liderança quilombola da Comunidade do Barroso, assassinado recentemente por defender o direito à terra na região do Baixo Sul da Bahia.

Solidariedade em tempos de pandemia

A solidariedade é uma realidade na vida das comunidades negras tradicionais. Tanto entre as comunidades do Baixo Sul da Bahia ou os terreiros de candomblé com os quais trabalhamos em Salvador, não faltaram mobilizações para atender famílias em situação de vulnerabilidade neste contexto difícil.

Documentário da Feira Agroecológica de Mulheres do Baixo Sul Contra a Violência

Devido à pandemia, em 2020 não foi possível a realização da Feira Agroecológica de Mulheres do Baixo Sul Contra a Violência, que completou 9 anos. Para marcar a data e a importância da atividade, lançamos um documentário sobre a feira, o qual resgatou as histórias que tecem os fios da importante construção coletiva que a feira se tornou na vida das mulheres. É um documentário que teve aspectos muito especiais, pois foi pensado junto às mulheres, que participaram enviando suas lembranças, fotos, vídeos, artes, registros do que a feira significa para elas.

Fôlego para 2021!

Além de projetos específicos, foram lives, reuniões online, gravações e muitas experimentações de nos mantermos ativas/os e em conexão com movimentos e organizações parceiras no Brasil e internacionalmente também.

Fomos desafiadas/os a resistir em todos os aspectos. E Nosso desejo é que em 2021 os ventos de justiça soprem mais fortes e tragam vacinas, saúde, afeto e mais justiça e menos fundamentalismos. Seguimos!

 

Por Natália Blanco e Luciana Faustine/ KOINONIA

𝗣𝗥𝗔𝗧𝗜𝗖𝗔𝗦 𝗗𝗘 𝗦𝗔𝗨𝗗𝗘 𝗗𝗢 𝗣𝗢𝗩𝗢 𝗗𝗘 𝗔𝗫𝗘 𝗖𝗢𝗡𝗧𝗥𝗔 𝗔 𝗗𝗜𝗦𝗦𝗘𝗠𝗜𝗡𝗔𝗖𝗔𝗢 𝗗𝗔 𝗖𝗢𝗩𝗜𝗗-𝟭𝟵

Organizado pelo 𝗖𝗢𝗠𝗜𝗧𝗘 𝗗𝗘 𝗘𝗡𝗙𝗥𝗘𝗡𝗧𝗔𝗠𝗘𝗡𝗧𝗢 𝗔 𝗖𝗢𝗩𝗜𝗗-𝟭𝟵 𝗗𝗔𝗦 𝗥𝗘𝗟𝗜𝗚𝗜𝗢𝗘𝗦 𝗗𝗘 𝗠𝗔𝗧𝗥𝗜𝗭 𝗔𝗙𝗥𝗜𝗖𝗔𝗡𝗔 𝗗𝗘 𝗦𝗔𝗟𝗩𝗔𝗗𝗢𝗥 𝗘 𝗥𝗘𝗚𝗜𝗔𝗢 𝗠𝗘𝗧𝗥𝗢𝗣𝗢𝗟𝗜𝗧𝗔𝗡𝗔

Foi reunida em uma cartilha o uso de medidas preventivas para manter boas condições de saúde, algo que comumente as comunidades de terreiro e de quilombos conhecem e já utilizam há muito tempo. Juntando o conhecimento das folhas, com a herança transmitida de boca a ouvido e em combinação com as orientações gerais da OMS e Secretarias de Saúde. Compartilhamos o resultado desta construção, uma cartilha com saberes que nos ajudarão a fortalecer a imunidade do nosso organismo contra os agravos dos sintomas da Covid-19. Nesta cartilha trazemos uma demonstração destes conhecimentos, alguns já popularizados, que podem ser utilizados para fortalecer a saúde física e espiritual nestes tempos de pandemia.

Acesse: https://drive.google.com/file/d/1vWZX0TBh0lkGBglXpOSgeTsu9eYEcLpi/view

Grupos quilombolas entram com ação no Supremo Tribunal Federal pedindo plano de emergência de combate ao coronavírus

Por Luciana Faustine

Uma ação no Supremo Tribunal Federal pede que o governo federal estabeleça um plano de emergência de combate ao coronavírus nos quilombos.

A iniciativa foi tomada por grupos quilombolas em parceria com a Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), que solicita, dentre outras coisas, a distribuição imediata de equipamentos de proteção individual, medidas de segurança alimentar e de combate ao racismo no atendimento médico a quilombolas.

Os quilombolas são os mais suscetíveis a morrer de covid-19 em todo o País. A taxa de letalidade desse grupo é de 3,6%, enquanto a da população em geral é de 3,1%.

Se os pedidos forem aprovados, o governo federal tem 30 dias para estabelecer, em parceria com a Conaq, o plano de ação.

A precariedade vivida nos quilombos vai além do coronavírus, que potencializou o descaso que a população quilombola vive no dia a dia, inclusive na falta de reconhecimento de suas terras e na falta de reconhecimento de sua existência. O maior responsável por contabilizar a população brasileira, o censo do IBGE, até então nunca contabilizou a comunidade quilombola, fato que acontecerá em 2021.

 

Programa Fala Egbé 2: Saberes tradicionais, ervas medicinais que tem ajudado nos efeitos do coronavírus?

Quer saber como as ervas medicinais e os saberes ancestrais do povo quilombola podem ajudar a combater os efeitos do coronavírus? Então vem ouvir nosso podcast:

Neste segundo episódio, representantes das comunidades negras tradicionais e quilombolas do Baixo Sul da Bahia e do Rio de Janeiro falam sobre como as ervas medicinais e os saberes ancestrais podem combater os efeitos do coronavírus e fortalecer o organismo.

Agradecemos a participação das nossas companheiras de Camamu: Ana Celsa (Organização SASOP), Valdilene de Jesus (Dandara dos Palmares), Ana Célia Pereira (Barroso) e Rejane (Comunidade Quilombola Maria Joaquina), de Cabo Frio, no Rio de Janeiro.

O Fala Egbé é um programa desenvolvido por Koinonia Presença Ecumênica e Serviço.

Apresentação e produção: Camila Chagas, advogada, educadora popular e colaboradora de Koinonia. Roteiro, edição e produção pelas jornalistas Luciana Faustine e Natália Blanco.

Quer trazer algum relato sobre sua comunidade ou sugerir um tema, basta enviar uma mensagem aqui no inbox ou por email para o e-mail da nossa comunicadora Natália Blanco: comunica@koinonia.org.br Gostou? Encaminhe o programa para os contatos da sua rede e ajude a divulgar!

 

Primeiro episódio do programa em áudio Fala Egbé

🥁 Está no ar!!!
Você está recebendo 1° episódio do programa em áudio Fala Egbé 🗞️

💬 Como as comunidades do Baixo Sul da Bahia estão vivenciando a pandemia?

🎙️ No primeiro episódio, programa desenvolvido por Koinonia Presença Ecumênica e Serviço, a coordenadora Ana Gualberto explica o significado da palavra Egbé, que além de dar nome ao programa, também é o nome do nosso informativo digital.

💡Lideranças de comunidades negras tradicionais do município de Camamu- BA contam as experiências das comunidades com a covid-19 e ainda abordamos algumas ações de solidariedades que estão ocorrendo.

✨ Agradecemos a participação das nossas companheiras de Camamu: Maria Andrelice (Dandara dos Palmares), Ana Célia (Barroso) e Marilene Silva (Pimenteira)

📌 Apresentação: Camila Chagas, advogada, educadora popular e colaboradora de Koinonia.

💌 Gostou? Encaminhe o programa para os contatos da sua rede e ajude a divulgar!

📝 Se quiser relatar algo sobre a sua comunidade ou sugerir um tema, basta enviar uma mensagem para o e-mail a nossa comunicadora Natália Blanco: comunica@koinonia.org.br

 

Terreiros e KOINONIA na luta pela vida durante a pandemia da Covid 19 em Salvador

Por Ana Gualberto
com contribuições de Natália Blanco

Com o início das medidas de isolamento social em 17 de março, estamos monitorando o impacto da pandemia junto às comunidades negras tradicionais com as quais atuamos. Diante do desafio da manutenção da vida durante a pandemia, por saber que nossas casas de candomblé são espaços de acolhimento e referência para a comunidade, por compreender e valorizar sua ação junto à sua comunidade e por ter sua casa como parceira de nossas ações e sonhos de uma sociedade com mais equidade. Nos juntamos para atuar de forma direta na garantia da sobrevivência do nosso povo negro periférico e de religião de matriz africana.

Historiador e educador social, o Ogan Lucas Cidreira compartilha sua breve análise sobre como o que a história nos revela sobre os processos de resistência do povo de axé, olhando para essas ações dos terreiros durante a pandemia, principalmente com as lideranças das mulheres:

“Não podemos perder a perspectiva de toda a odisseia que cerca a sobrevivência da identidade ancestral em nós, essa medida é a condição singular para a nossa continuidade.
Tudo existe a partir do corpo, local onde nos é depositada pelas experiências a memória. A minha traz a resistência da manutenção e práticas dos ritos nas senzalas e na força das mulheres que lutaram e tornaram possível o candomblé entre outras denominações e manifestações ancestrais africanas. Em minha opinião primeiro espaço de resistência institucional da população negra, basilar para o resgate identitário de negras e negros em todo país.
A título de exemplo não seria possível a nossa sobrevivência quando o estado recém brasileiro institui leis que tornam crime ser negro e senão pela força das mulheres que sempre sustentaram e tornaram possível a nossa existência como grupo, o sustento da família, ao lado do homem negro perseguido e violentado, estão as mulheres sempre a lhes prover a vida, o resgate, a resistência e os caminhos para libertação, em seu pleno exercício de poder.
Assim, as ações que os terreiros de candomblé praticam em seu cotidiano de luta e resistência, o têm por inspiração dessa luta matriarcal, por alteridade, por entender o valor da vida e num momento como este jamais estaríamos eximidos do nosso papel e responsabilidade fraterno de cuidar. Mais uma vez vítimas de um processo irresponsável de globalização e usura, que não só globaliza as “conquistas” contemporâneas, mas também as suas mazelas.”

Olhando para realidade, algumas questões são importantes serem afirmadas:

  • Mais de 70% destas populações não tem vinculo empregatício, o que as coloca em situação de vulnerabilidade econômica;
  • Mais de 60% destas comunidades estão em áreas com saneamento básico insuficiente ou inexistente;
  • A crise econômica e social não se resolverá em curto prazo, o que nos coloca a necessidade de pensar mais ações de manutenção de sobrevivência;
  • As lideranças de terreiro e das associações quilombolas são referencias para buscar auxílio imediato para sanar falta de alimento, itens de higiene, compra de gás de cozinha, remédios entre outros itens.
  • Há redes articuladas pela Sociedade Civil em processos de distribuição de alimentos, com as quais estamos conectando as comunidades onde há esse tipo de intervenção. Porém a distribuição de alimentos tem se tornado cada vez mais complexas a partir de grandes entregas a partir de um lugar central. Uma solução é a compra local e a distribuição família por família, evitando assim as aglomerações que são de alto e de maior risco para as populações.

Como parceiros, KOINONIA foi procurada pelas lideranças de comunidades de terreiro de candomblé e iniciativas que contemplam este público para contribuir no que pudesse. Assim iniciamos diálogo com nossos financiadores para contribuir de alguma forma. Conseguimos destinar uma parte de nossos recursos que transformamos em alimentos e itens de limpeza.

Nós reportamos aos alguns terreiros que nos procuraram, que realizam atividades em parceria com KOINONIA nos últimos anos e que oferecem ações sociais em suas casas, buscamos também chegar em áreas diversas da cidade de Salvador. Chegamos à seguinte lista de comunidades de terreiro de candomblé e iniciativas:

Ilê Axé Okutá Lewá, Abassá de Ogum, Ilê Axé Torrun Gunam, Ilê Axé Omo Omim Tundê, Ilê Axé Obá Tossi, Ilê Axé Tafá Oyá, Egbé Onã Osun, Casa Branca, Comissão de Terreiros do Engenho velho, Coletivo pelo Nordeste de Amaralina, Espaço Vovó Conceição/Ong Dendê do Aro Amarelo e Rede de Mulheres Negra. Estes grupos receberam as doações e organizaram a distribuição a partir de seus espaços sagrados, reafirmando assim o papel da religião de matriz africana na promoção da vida.

Conseguimos alcançar aproximadamente 200 famílias. Compartilhamos algumas imagens e depoimentos para encher seu coração de alegria e esperança de uma sociedade mais solidária e amorosa.

Mãe Rose do Ilê Axé Obá Tossi:

“A situação é complicada, porque a gente vive de jogo, e através desse jogos que a gente compra cimento pra fazer uma obra na casa. Não para fazer do nosso axé um comercio, mas para suprir as necessidades da casa, para as contas de luz, agua, telefone etc. Só que neste momento sem poder atender clientes estamos vivendo na misericórdia de Deus e dos orixás. Mas uma coisa temos que agradecer, nossa vida, ficar cada um dentro de casa e pedir misericórdia para que isso acabe logo. Todo nosso povo ficou muito emocionado com a iniciativa.”

Iyalorixá Odara Bomfim do Egbé Onã Osun:

“Minha avaliação de organizações, que apoiam, que visam atuar no maior conhecimento de cultura de grupos históricos, e essa importância de ser uma organização ecumênica, de entender que a diferença não nos faz diferente, ela nos aproxima e nos traz conhecimento. Então ter a disposição de Koinonia auxiliando em nossa campanha para as doações, faz a sensação de caminho, de caminhar, de positividade, existe.

Diante de toda a trajetória histórica que nós povos e comunidades de matriz africana temos, neste caminho o que mais nos deparamos é com solidão. Então você se deparar com uma organização que categoricamente visa, entende, respeita, acolhe e aceita seus projetos, isso faz com que você tenha um sentimento de pertença. De que de fato essa terra é sua, esse caminho é seu, a liberdade, de fato, essa liberdade religiosa, ela é positiva. Então eu vejo de suma importância todas as atividades de Koinonia e essa disponibilidade acolhedora que todas as pessoas envolvidas nesta grande organização tem.”