Quilombolas do Baixo Sul da Bahia participam de oficina sobre masculinidades

Desconstruir a masculinidade tóxica e se abrir a novas perspectivas visando à igualdade de gênero é fundamental hoje em dia, em qualquer espaço que seja. Seguindo esta linha, Koinonia, em parceria com a Articulação de Mulheres Negras do Baixo Sul da Bahia e a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese), promoveu uma oficina sobre masculinidades nos dias 12 e 13 de setembro, com quilombolas das comunidades Jetimana e Dandara, na Bahia.

Ao todo, 44 homens participaram de atividades que contribuem para a construção de novas masculinidades, e são estratégias de luta contra as desigualdades de gênero e a violência contra a mulher. Os números relacionados a esta última no estado são altos: apenas no 1º semestre de 2021, o Ministério Público da Bahia (MP-BA) denunciou à Justiça 4.890 casos de agressões contra mulheres.

Obtendo resultado positivo entre o público participante, a oficina será realizada em outras comunidades negras tradicionais da região, e haverá ainda um encontro final para troca de experiências.

Representantes de movimentos negros encontram o ex-presidente Lula na Bahia

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu, na última quinta-feira (26), com movimentos negros da Bahia, na Senzala do Barro Preto, no Curuzu, Salvador. O objetivo do encontro foi acolher informações e reivindicações desses movimentos.

Em sua fala, a iyalorixá Jaciara Ribeiro lembrou a mãe Gilda de Ogum, fundadora do Ilê Axé Abassá de Ogum. Falecida em 2000, Mãe Gilda se tornou um símbolo contra a intolerância religiosa. Jaciara também recordou um importante fato dentro dessa luta: a sanção pelo ex-presidente da lei que estabeleceu o 21 de janeiro como o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. A iyalorixá ressaltou o quanto os terreiros de religiões de matriz africana e espaços quilombolas ficaram ainda mais expostos ao racismo no contexto da pandemia.

Ao final destacou a importância de se fortalecer as bases. “Uma fala religiosa também precisa pautar a política. Precisamos saber os acordos que são feitos, para depois a gente não terminar de forma diferente”. Seu discurso foi encerrado com um canto de Oxum.

A representante da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq) e jovem liderança quilombola, Juliana Vaz, reverenciou a implantação de políticas públicas de cunho reparatório à população negra. Em depoimento emocionante, lembrou sua infância difícil, anterior às políticas de reparação, e comemorou: “Sabe o que essa menina é hoje? Secretária Municipal de Assistência Social [do município de Bom Jesus da Lapa, na Bahia].”

Representando a Rede de Mulheres Negras Nacional no Combate à Violência e a Rede de Mulheres Negras da Bahia (RMN-BA), Suely Santos, entregou uma carta ao ex-presidente. “Nós temos que abrir um diálogo com o movimento de mulheres negras no Brasil. (…) Não existe democracia se você não trouxer todas, todos e todes”, afirmou Suely.

Koinonia Presença Ecumênica e Serviço esteve presente, ao lado de diversas organizações das quais é parceira em defesa dos direitos dos povos de terreiro e das mulheres negras.

Mulheres negras do Baixo Sul da Bahia avaliam situação de comunidades na pandemia

Foto: Ana Gualberto

Com a participação de KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, a Articulação de Mulheres Negras do Baixo Sul da Bahia realizou, em 23 de julho, uma assembleia semestral de avaliação e planejamento. O evento fez parte da agenda de mobilização do Julho das Pretas.

O movimento fez uma análise de conjuntura das comunidades da região, e constatou uma piora em problemas estruturais já existentes, como educação, prejudicada pela falta de internet, equipamentos e acompanhamento pelos educadores; transporte, que além de caro, é escasso, dificultando a locomoção de educadores, alunos e das pessoas até a cidade; comercialização, comprometida pela dificuldade de deslocamento citada e pela baixa de vendas; e violência doméstica, crescente principalmente contra mulheres, devido ao isolamento social. Além disso, foi lembrado o aumento de casos de depressão e outras doenças, abuso de poder comercial e as notícias falsas sobre vacinas e uso de máscaras.

Momentos de apoio mútuo

Foto: Ana Gualberto

Apesar do agravamento de determinadas situações, a pandemia também tem seus aspectos positivos. As mulheres do Baixo Sul ressaltaram a solidariedade, união, autocuidado, criatividade e aumento na produção dentro das comunidades. No período, houve entrega de cestas básicas, confecção de máscaras, realização da feira local e de rodas de conversa virtuais. Entre essas últimas, ganharam destaque as edições da “Quem cuida de nós? – Refletindo sobre o cuidado com as mulheres negras”, promovidas por KOINONIA. O incentivo e avanço da vacinação também foi um dos pontos altos do período para as comunidades.

O início e o final do encontro foram marcados por uma mística e troca de sementes, mudas e frutos, num ato simbólico de solidariedade e sororidade entre as participantes.

Foto: Ana Gualberto

A Articulação de Mulheres Negras do Baixo Sul da Bahia é um movimento que envolve 18 comunidades de cinco municípios da região (Camamu, Igrapiúna, Ituberá, Taperoá, Valença).

Quilombo na Bahia realiza evento sobre educação ambiental

A preocupação com o descarte de resíduos e seu impacto ambiental esteve no centro da Caminhada Sagrada da Resistência, realizada em 23 de maio no Quilombo Pitanga de Palmares/Caipora, Bahia. Devido à pandemia, teve frequência reduzida.

O evento, apoiado por KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, foi aberto com a apresentação da Dança de São Gonçalo, manifestação cultural muito popular na Bahia, principalmente na região do Rio São Francisco e no Recôncavo Baiano.

Na sequência, foi apresentado um projeto de sustentabilidade e lançada a cartilha “Akoberê Aiyê – Princípio da Terra”, sobre meio ambiente e religiões de matriz africana.

“Foi fundamental a gente falar de educação ambiental, descarte do lixo, e sobre como nós, de terreiro, devemos fazer as oferendas sem impactar o meio ambiente”, destacou Iyá Jaciara, uma das organizadoras do encontro.

Representante de KOINONIA, Ana Gualberto lembrou de uma cartilha de Abassá de Ogum, que também traz práticas sustentáveis voltadas ao povo de terreiro. Em sua fala, aproveitou para exaltar os quilombolas presentes.

“Nesse mundo que a gente está vivendo, as pessoas fazem muita homenagem em memória. A gente precisa receber homenagem em vida também. É importante que, nesse espaço, a gente reverencie a ancestralidade, mas também valorize quem está na luta hoje”.

Após a Caminhada Sagrada da Resistência pelo terreiro e seus arredores, o evento foi encerrado com a plantação de folhas sagradas e a inauguração de cestos de lixo sustentáveis.

O Quilombo Pitanga de Palmares/Caipora se localiza no município de Simões Filho, Região Metropolitana de Salvador.

Confira algumas imagens feitas no evento:

*Créditos: Acervo Abassá de Ogum

 

Apoiadores do candidato a prefeito de Simões Filho, Dinha Tolentino, promovem violência religiosa contra adeptos de religião de matriz africana

Por Luciana Faustine

Na última segunda-feira (09), adeptos de religião de matriz africana foram surpreendidos por um vídeo que circula nas redes sociais, o qual promove a candidatura de Dinha Tolentino (MDB) e diz que o candidato Eduardo Alencar (PSD) está indo a um terreiro de candomblé para receber a “benção do demônio”.

Com 1:53 de duração o vídeo mostra imagens da entrada do terreiro Ilê Axé Ominigê e um grupo de pessoas entrando no local. Segundo o narrador do vídeo uma das pessoas seria o candidato Eduardo Alencar, que estaria indo ali para “pedir a benção do demônio para receber a chave da cidade”.

Nos minutos seguintes o narrador afirma que evangélicos, católicos e pessoas que creem em Deus não devem permitir que Alencar  seja eleito, pois o único dono da cidade é Deus, e Deus levantou Dinha para governar a cidade.

Divulgada no último dia 7 de novembro uma pesquisa do Paraná Pesquisas demostra que Dinha está liderando as intenções de votos na cidade, com 32,4%, seguido por Eduardo Alencar, que ocupa o 2° lugar, com 23,3% das intenções de voto.

Em nota, representantes do Terreiro Ilê Axé Ominigê ressaltaram que se sentiram surpreendidos por um ato de racismo religioso, que ofende o direito de liberdade religiosa expresso na Lei nº 9.459, de 15 de maio de 1997, que configura crime a prática de discriminação ou preconceito contra religiões.

“Nós do terreiro Ilê Axé Ominigê fomos surpreendidos, nesta segunda-feira, por um ato grosseiro e covarde de racismo religioso, comportamento de perseguição e cerceamento ao livre exercício de religião com o claro intuito de desqualificar a religião de matriz africana professada por milhares de pessoas na cidade. Um vídeo que circula nas redes sociais, promovendo a candidatura à reeleição do atual prefeito da cidade, conhecido como “Dinha”, ataca o nosso terreiro. O narrador, neste vídeo, declara com desfaçatez e escárnio que o candidato visitante estava “pedindo a bênção do demônio para receber a chave da nossa cidade…”. Constata-se, assim, que seus autores têm a intenção de nos desqualificar, atacando a nossa fé em nome de uma disputa partidária. Sentimo-nos extremamente violentados”, diz a nota.

Em suas redes sociais, Dinha Tolentino se manifestou através de uma nota de esclarecimento, na qual diz que “repudia atos de intolerância de qualquer natureza e Fake News”.

“Nossa campanha, que é pautada unicamente em trabalho e propostas para dar continuidade ao desenvolvimento do município, está sendo alvejada por uma vasta produção diária de Fake News. A falta de respeito na tentativa de pautar a disputa política, em Simões Filho, está causando indignação à nossa sociedade, e nossa Coligação repudia veementemente toda forma de notícia falsa, conteúdo preconceituoso, intolerância, retaliação ou violência que possam ferir a honra ou a moral do cidadão, grupos políticos, representações sociais ou religiosas”, diz a nota do candidato.

Ekedi de Oxum do Ilê Axé Ominigê, Tassia Batista, também se disse surpreendida com o vídeo e refuta a nota divulgada por Dinha Tolentino. Segundo ela, por ser um vídeo no qual enaltece a candidatura, o candidato deveria dizer se tem ou não algo a ver com o desenvolvimento e publicação do conteúdo.

“Ele não fala que não foi ele quem fez o vídeo, que não partiu de sua candidatura, ele não menciona nada disso. Ele só fala que é contra a Fake News. Como o vídeo enaltece a candidatura dele, o mínimo que ele deveria fazer é se posicionar contra atitudes racistas e de intolerância religiosa. Meu pai ficou super abalado. A perversidade do racismo, ele atinge de várias esferas, inclusive no sentido cívico”, disse ela.

Também Ekedi do Ilê Axé Ominigê, Fernanda Silva, gravou um vídeo expressando a sua indignação com o ocorrido.

“Todos nós da casa fomos surpreendidos. Esse vídeo escarnece com o candomblé, humilha e tira a dignidade do meu babalorixá e de todos os filhos da casa. O meu pai de santo tem 50 anos de iniciado, a casa está em Simões Filho há 40, é um lugar respeitado por toda comunidade, nós nunca passamos por isso. Nós, os filhos da casa, estamos engajados na batalha, pela história do meu babalorixá, Luiz Natividade de Oxum, pela história do nosso Ilê Axé Ominigê, por Oxum e por justiça”, disse ela.

Integrantes de religião de matriz, tanto de Simões Filho quanto de outras cidades e estados, demonstraram apoio ao acontecido. Dentre eles, Dofono Hunxi e Apokan Walter Junior, integrantes do Vodun Zo Kwe, que se manifestaram em suas páginas nas redes sociais, e Jaciara Ribeiro, ativista contra intolerância religiosa e iyalorixá do Ilê Abasá de Ogum, localizado em Salvador, capital do estado.

“Isso é muito perverso, até porque qualquer iyalorixá, qualquer babalorixá tem a sua casa e livre arbítrio para receber quem quiser. Então meu repúdio a esses neopentecostais. Mesmo nesse momento de afastamento presencial, estamos aqui atentos. Vamos denunciar ao Ministério Público, ao Centro de Referência de Combate ao Racismo e vamos aclamar aos orixás que nos proteja”, disse Jaciara.

Por sua parte, o candidato Eduardo Alencar, até o fechamento desse texto, não havia se manifestado publicamente sobre o ocorrido.  

Nota de Repúdio ao racismo religioso contra o Ilê Axé Ominigê

Simões Filho, 09 de novembro de 2020

Nós do terreiro Ilê Axé Ominigê fomos surpreendidos, nesta segunda-feira, por um ato grosseiro e covarde de racismo religioso, comportamento de perseguição e cerceamento ao livre exercício de religião com o claro intuito de desqualificar a religião de matriz africana professada por milhares de pessoas na cidade. Um vídeo que circula nas redes sociais, promovendo a candidatura à reeleição do atual prefeito da cidade, conhecido como “Dinha”, ataca o nosso terreiro. Nas imagens, consta a entrada da Casa Religiosa, cuja comunidade foi visitada por um candidato à Prefeitura de Simões Filho – prática comum em campanhas políticas. O narrador, neste vídeo, declara com desfaçatez e escárnio que o candidato visitante estava “pedindo a bênção do demônio para receber a chave da nossa cidade…”. Constata-se, assim, que seus autores têm a intenção de nos desqualificar, atacando a nossa fé em nome de uma disputa partidária. Sentimo-nos extremamente violentados.

É válido rememorar que a Lei nº 9.459, de 15 de maio de 1997, considera crime a prática de discriminação ou preconceito contra religiões. Repudiamos toda e qualquer iniciativa que insista em violar a livre expressão religiosa, assegurada pela Constituição Federal Brasileira. Atitudes como essa devem ser investigadas e punidas pelas autoridades responsáveis.

Não seremos interrompidos em nossa dignidade religiosa, jamais trataremos com condescendência atos que ferem nosso Babalorixá, nossa comunidade, nossa religiosidade. O Ilê Axé Ominigê demanda respeito e, como cidadãos, seus filhos e filhas se recusam a tratar este caso como corriqueiro. Este é um crime de ódio e de racismo e usaremos todos os recursos legais para identificar e punir os autores.

Nosso povo não esquece. Não esqueceremos.

Primeiro episódio do programa em áudio Fala Egbé

🥁 Está no ar!!!
Você está recebendo 1° episódio do programa em áudio Fala Egbé 🗞️

💬 Como as comunidades do Baixo Sul da Bahia estão vivenciando a pandemia?

🎙️ No primeiro episódio, programa desenvolvido por Koinonia Presença Ecumênica e Serviço, a coordenadora Ana Gualberto explica o significado da palavra Egbé, que além de dar nome ao programa, também é o nome do nosso informativo digital.

💡Lideranças de comunidades negras tradicionais do município de Camamu- BA contam as experiências das comunidades com a covid-19 e ainda abordamos algumas ações de solidariedades que estão ocorrendo.

✨ Agradecemos a participação das nossas companheiras de Camamu: Maria Andrelice (Dandara dos Palmares), Ana Célia (Barroso) e Marilene Silva (Pimenteira)

📌 Apresentação: Camila Chagas, advogada, educadora popular e colaboradora de Koinonia.

💌 Gostou? Encaminhe o programa para os contatos da sua rede e ajude a divulgar!

📝 Se quiser relatar algo sobre a sua comunidade ou sugerir um tema, basta enviar uma mensagem para o e-mail a nossa comunicadora Natália Blanco: comunica@koinonia.org.br