Tempo e Presença

07/11/2014

A situação geral da América Latina traz preocupações de toda ordem em relação ao seu futuro próximo e ao posicionamento mais adequado frente a tantas crises. A Igreja Católica enfrenta vários problemas internos na busca de sua identidade e na manutenção de sua legitimidade frente aos anseios populares. Não é só uma questão de adaptar-se aos novos tempos mas sim o drama de, como instituição, enfrentar toda uma problemática que'transcende as questões de tática e de estratégia. Não há, é o que mais parece, possibilidade de uma adaptação tradicional a novas configurações. As relações entre clero e massas não são as mesmas e o conteúdo da pregação sofre alterações substanciais na medida em que o líder religioso entra em contato com o cotidiano paroquial. Em outras palavras, o recado não pode ser o mesmo.

O protestantismo, cujas matizes conservadoras são mais fortes, enfrenta dificuldades também graves mas de natureza diferente. Tanto na América Central como nos países do Sul tem-se identificado mais com os governos fortes e autoritários. Os setores populares atingidos por sua pregação tendem muito mais a posições alienadas ou conservadoras, e os líderes que trabalham e militam em posições mais críticas não têm conseguido partilhar suas preocupações com suas próprias congregações. Em outras palavras, o protestantismo avançado não tem massa, salvo casos bem raros.
 
Na Argentina a situação se agrava na medida em que tudo indica que seu clero católico tem sido um dos mais tradicionalistas do Continente e possivelmente um dos mais coniventes com os abusos do poder militar. No artigo especial deste número, Rafael Brabant levanta os problemas mais graves da conjuntura e aponta possíveis rumos para uma solução derpocrática de seus principais estrangulamentos. Não deixa de ser sintomática sua crítica à atuação da Igreja Católica, principalmente em relação às conotações éticas, primeiro de seu silêncio, depois de sua participação na tentativa de passar um borrão sobre um passado recente que acumulou erros tão graves em relação aos direitos humanos. Sentimo-nos tentados a comparar a meditação de Zwinglio a respeito da recuperação da memória de uma nação para melhor fundamentar seu futuro e a proposta de amnésia histórica endossada pela maior parte do clero argentino. Mas, mesmo assim, sente-se que, em algumas dioceses, os sinais de mudança e de esperança começam a se manifestar. É o caso de Quilmes e da Homilia que publicamos em nossa seção Documento. Júlio Barreiro é um dos líderes ecumênicos mais conhecidos da América Latina e trata da questão das Malvinas de maneira clara apontando as conseqüências mais imediatas da irresponsabilidade militar e do aventureirismo político de um regime decadente. Num sentido mais profundo, o que acontece é a clara configuração de um compromisso político de setores religiosos com os movimentos libertadores na maioria dos países do Continente.
 
Nosso setor de assessoria traz a reforma agrária na medida em que o debate surge entre agentes de pastoral e dos movimentos sociais populares. Apresentar parte deste debate é tentar contribuir através da divulgação e do oferecimento de um local que permita a expressão e o diálogo.
 
De qualquer forma tentamos caminhar um caminho de esperanças no meio das longas e seculares lutas que nos afligem, ou, como Pablo Neruda:
"Herdamos a vida dilacerada dos povos que arrastam um castigo de séculos, os povos mais edênicos, os mais puros, aqueles que construíram, com pedras e metais, torres milagrosas, jóias de fulgor deslumbrante; povos que de repente foram arrasados e emudecidos pelas épocas terríveis do colonialismo que ainda existe."

 




Faça o download: Tempo-e-Presenca_179.pdf



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