Ana Gualberto
Iyá Oju Omo Ilê Adufé
Coordenadora de ações com comunidades tradicionais de KOINONIA
Editora do Observatório Quilombola

 

O ano de 2020 ficará marcado pelo misto de sentimentos que ele nos produziu: medo, solidão, saudade, reinvenção, invenção, tristeza, preocupação… A lista é enorme e vocês podem completá-la. Definitivamente, 2020 foi um ano muito difícil. Mas estamos aqui, começando 2021.

Com este novo ano inicia-se uma nova década. Ela começa com a esperança da vacina e do controle da pandemia que assola o mundo, com a qual devemos conviver pelo menos até o final do primeiro semestre.

Choramos nossas perdas, tivemos momentos de desanimo, sofremos com o isolamento imposto pela quarentena, isolamento necessário, mas que por alguns períodos me provocou uma enorme sensação de desespero.

Desespero de achar que o mundo zumbi vendido no cinema chegaria à minha cidade, bairro, rua. Mas graças ao sagrado, graças aos nossos cuidados, estamos vivas e vivos. Sobrevivemos!

Escrevo esta primeira coluna de 2021 após ficar um tempo desanimada em compartilhar os meus pensamentos devido às perdas e aos medos que me assolaram e assolam. Mas vamos falar de esperança e resistência!

Hoje, meados de fevereiro, nosso país tem apenas 2,5% da população brasileira vacinada. Estamos com alta no número de contagio, com novas variantes do vírus, toque de recolher instituído em Salvador. Aí você ta pensando: Como falar de esperança neste contexto?

Sou uma mulher negra, religiosa, mãe, ativista e, como uma boa filha de Osun, eterna apostadora em mudanças. Uma nova década se inicia e é mais um motivo para repensarmos muitas coisas: nossas ações, nossas escolhas, nossas relações com as pessoas e com a natureza.

Grande parte do que está acontecendo hoje tem a ver com isso, é preciso mudar! Romper com o que está errado, com o que nos faz mal, com o que faz mal à natureza, com o que nos nega a vida. É possível e preciso mudar!

Acreditar nessas mudanças mantém viva a minha esperança de dias melhores, de uma sociedade com equidade, onde possamos ser nós mesmos com nossa diversidade e multiplicidade. Esse mundo é possível.

Falar de resistência é falar da própria essência que atravessou o atlântico com meus ancestrais, é falar dos povos originários que até hoje teimam em continuar vivos.

Resistir é a essência dos povos tradicionais. Desafio diário que enfrenta todos os fundamentalismos presentes na sociedade mundial que busca cotidianamente nos extinguir. Acordar todos os dias e reafirmar minha cosmovisão afrocentrada e matriarcalizada é resistir.

Lhes convido a este desafio diário de manter a esperança e a pratica da resistência. Reafirme sua ancestralidade afrodiaspórica ou originaria desta terra Brasil.

Reafirme as praticas e existências das comunidades tradicionais que buscam harmonizar-se com a natureza, pois nos entendemos como parte dela. Mantenha sua indignação e insubordinação a um sistema que não nos respeita. Sejamos resistentes e insurgentes. Não estamos sozinhos. Somos força ancestral que nos mantém vivas e vivos!

 

“… Mesmo com todo o emblema, todo o problema
Todo o sistema, toda Ipanema
A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando
A gente vai levando essa gema

Mesmo com o nada feito, com a casa escura
Com um nó no peito, com a cara dura
Não tem mais jeito, a gente não tem cura
Mesmo com o todavia, com todo dia
Com todo ia, todo não ia

A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando…”

Caetano Veloso – Chico Buarque/1975

Ana Gualberto

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