No dia 10 de janeiro, a comunidade de Itinga, em Lauro de Freitas (BA), recebeu a Roda de Diálogo Cultural, uma atividade voltada ao enfrentamento do racismo religioso e ao fortalecimento da juventude e da cultura de matriz africana. A iniciativa marcou a retomada de ações coletivas no território e reforçou a importância da cultura como ferramenta de formação política, diálogo comunitário e afirmação de direitos.
A atividade foi realizada pelo Ilê Asé Opo Alafunbi, terreiro que há mais de dez anos desenvolve ações sociais, culturais, religiosas e empreendedoras na comunidade de Parque São Paulo – Itinga. Ao longo de sua trajetória, o Ilê tem atuado na promoção do respeito às religiões de matriz africana, historicamente alvo de discriminação, violência simbólica e material, criando espaços seguros de escuta, informação e diálogo com a comunidade.
Território, cultura e desigualdades
Itinga é um dos bairros mais populosos e socialmente vulnerabilizados de Lauro de Freitas, marcado pela ausência de políticas culturais estruturantes. A região tornou-se território de reassentamento de populações removidas de áreas centrais de Salvador, especialmente por meio de conjuntos habitacionais, o que resultou em uma comunidade diversa, mas com poucos espaços culturais consolidados.
Apesar disso, Itinga se destaca como o segundo bairro do município com maior concentração de terreiros de religiões de matriz africana, o que reforça sua importância estratégica para ações de valorização cultural, diálogo inter-religioso e enfrentamento ao racismo religioso.
Da formação ao encontro cultural
Em 2025, o Ilê Asé Opo Alafunbi realizou quatro atividades formativas por meio do Projeto Àwon Ojú Mímo, abordando a importância das folhas medicinais, do autocuidado e dos saberes tradicionais. A partir dessa experiência, surgiu a necessidade de promover uma ação mais aberta e dinâmica, que unisse formação, cultura e a alegria do povo de axé.
Nesse contexto, a Roda de Diálogo Cultural foi pensada como um projeto de um dia, articulando música, arte e diálogo político como estratégia de enfrentamento ao racismo religioso, sem perder o compromisso com a garantia de direitos, a preservação da cultura ancestral e a afirmação da identidade dos povos de terreiro como parte essencial da história e da vida social do território.
Cultura como estratégia de enfrentamento
A Roda de Diálogo Cultural combinou debate político, música e manifestações artísticas para dialogar com a juventude de forma acessível e afirmativa. A proposta partiu do reconhecimento de que a cultura afro-brasileira é amplamente consumida no país, especialmente por meio da música e da culinária, ao mesmo tempo em que as religiões de matriz africana seguem sendo alvo de preconceito e violência.
Mesmo sem recursos financeiros para pagamento de cachês, a atividade foi viabilizada por meio de parcerias, mobilização comunitária e ações solidárias, como rifas. Artistas e bandas formadas por pessoas de matriz africana participaram da programação, fortalecendo o caráter político e simbólico da iniciativa.
Para Joice Cleide Santiago, liderança do Ilê Asé Opo Alafunbi e uma das organizadoras da atividade, trabalhar o enfrentamento ao racismo religioso a partir da cultura é uma estratégia fundamental para dialogar com os jovens e ampliar a participação comunitária:
“A gente percebe que muitos jovens estão nos terreiros, mas sem consciência política. Quando usamos a cultura e a música, conseguimos atrair, dialogar e mostrar que política e religião se discutem, sim, especialmente quando falamos de direitos, respeito e da nossa sobrevivência enquanto povos de matriz africana. Fazer essa roda cultural foi uma forma de enfrentar o racismo religioso com alegria, sem perder a seriedade da luta.”
Fortalecimento dos terreiros e formação política
A roda de diálogo teve como principal objetivo criar um espaço coletivo de escuta, troca de experiências e construção de estratégias para o enfrentamento ao racismo religioso. O encontro deu voz a lideranças e membros de terreiros vizinhos e parceiros, visibilizando situações de intolerância vividas no cotidiano e promovendo a conscientização da comunidade sobre a importância do respeito à diversidade religiosa.
O fortalecimento dos terreiros foi apontado como eixo central do enfrentamento à intolerância, uma vez que esses espaços cumprem papel fundamental de resistência, acolhimento, preservação cultural e espiritualidade. Quando fortalecidos, os terreiros ampliam sua capacidade de organização coletiva, proteção dos espaços sagrados, denúncia de violações e diálogo com o poder público e a sociedade civil.
Apoio e presença de KOINONIA
A Roda de Diálogo Cultural contou também com o apoio de KOINONIA, que acompanhou a atividade como parte de seu compromisso com a defesa da liberdade religiosa, o enfrentamento ao racismo religioso e o fortalecimento de iniciativas comunitárias nos territórios. A presença possibilitou a escuta das demandas locais, o diálogo com lideranças religiosas e o reconhecimento da potência das ações desenvolvidas pelo Ilê Asé Opo Alafunbi.
Encaminhamentos e próximos passos
Como encaminhamentos, o encontro apontou para a necessidade de dar continuidade às rodas de diálogo, criar ou fortalecer uma rede de terreiros em Itinga, estabelecer parcerias com escolas, órgãos públicos e organizações da sociedade civil e desenvolver ações educativas e campanhas permanentes de conscientização sobre o racismo religioso.
Também foi destacada a importância de mapear os terreiros da região, registrar denúncias de intolerância e promover formações sobre direitos humanos e liberdade religiosa, garantindo que as ações tenham continuidade, fortalecimento coletivo e impacto real no território.
Fotos: Eduardo Mendonça (@mendincafotografias)
