Bereia esteve presente e verificou como religião foi um tema destacado na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), realizada de 10 a 21 de novembro de 2025. O evento transformou Belém em ponto de encontro global para debates sobre a crise climática, racismo ambiental, negacionismo climático e a importância do sagrado na preservação do meio ambiente. Pela primeira vez em três décadas, a conferência aconteceu no coração da Amazônia, aproximando chefes de Estado, cientistas, empresários, movimentos sociais e povos tradicionais da realidade da floresta. A cidade viveu dias de intensa mobilização política e cultural, que extrapolaram os limites dos pavilhões oficiais para ocupar ruas, praças, centros comunitários e territórios de fé.
Entre as programações paralelas, ganhou destaque a Vigília pela Terra, iniciativa do Instituto de Estudos da Religião (ISER) realizada ao longo de 2025 em diferentes cidades brasileiras e que teve seu encerramento simbólico justamente durante a COP, reunindo centenas de pessoas em um ato que combinou espiritualidade, ciência e denúncia pública.
Na Cúpula dos Povos, espaço construído e conduzido pela própria sociedade civil, as tradições religiosas não apenas marcaram presença: elas ganharam voz e protagonismo. Ali, o Tapiri Ecumênico e Inter-religioso, sediado na Catedral Anglicana de Santa Maria, tornou-se um dos pontos mais vivos, plurais e politicamente relevantes do evento.
Tapiri: abrigo, encontro e articulação política, social e religiosa
Mais do que uma tenda temática, o Tapiri consolidou-se como um território de respiro e força, construído a partir de três anos de caminhada por todos os estados da Amazônia Legal. “Tapiri é uma casa simples, provisória, feita de palha. É a casa de quem cuida da terra, lavradores, ribeirinhos, povos indígenas. Esse olhar de descanso, de regaço e de comunhão traduz o que propusemos ao percorrer a Amazônia: criar um espaço onde as pessoas pudessem se fortalecer”, explicou a assessora de ecumenismo e diálogo da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) e clériga da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) Reverenda Bianca Daébs, em entrevista ao Bereia.
De acordo com a teóloga da IEAB, o Tapiri não se limitou ao acolhimento. Ele se transformou em plataforma política de enfrentamento aos fundamentalismos. “O negacionismo climático interessa a um capitalismo extremamente perverso que se instrumentaliza nos fundamentalismos religiosos, políticos e econômicos. Para que esse capitalismo avance devorando territórios, ele precisa se revestir de discurso religioso, da teologia do domínio e da prosperidade. É assim que o crime se legitima”, ressalta Daébs.
A assessora da CESE contou que as escutas promovidas pelo Tapiri nos estados amazônicos pelos quais passou, revelam como esse processo chega às comunidades. “Algumas pessoas diziam que não havia fundamentalismo em seus territórios. Mas no meio do encontro, reconheciam. O discurso para vender a terra ao agronegócio, a submissão feminina como vontade divina, tudo isso foi sendo desmontado pelas próprias comunidades”. Ela revela ainda que essa metodologia de escuta se materializou durante a COP na forma de mesas, rituais, oficinas e apresentações culturais que reuniram centenas de pessoas diariamente. “Nada é fácil, mas é de mãos dadas que seguimos”.
Tapiri como força coletiva
Para o diretor adjunto do ISER Clemir Fernandes, o Tapiri se destacou entre todos os espaços da COP, por reunir quem vive a crise climática no dia a dia. “O Tapiri tem um diferencial, reúne unidades religiosas, povos quilombolas, povos tradicionais, gente de fé que está nos territórios e atua pela justiça climática de maneira corajosa e enraizada”, analisa.
Em entrevista ao Bereia, Fernandes resumiu a relação de troca e discussões que aconteceram na Catedral Anglicana de Santa Maria. “É encontro de fé e esperança, de troca de experiências, de compartilhar boas práticas. É fortalecer a luta. É dar as mãos. Nada é fácil, nada é simples, mas sabemos que só de mãos dadas podemos apoiar as lutas mútuas”.
O diretor do ISER também enfatizou o papel pedagógico das espiritualidades. “Quando você conecta a linguagem da ciência com a linguagem da fé, é possível conversar sem arrogância. As comunidades religiosas têm essa responsabilidade educativa: conversar com respeito, proximidade e afeto para transformar mentalidades”.
Para quem integra a Iniciativa Inter-religiosa pelas Florestas Tropicais (IRI-Brasil), a COP30 evidenciou que a emergência ambiental não é apenas técnica, mas ética. A organização reforça que defender a Amazônia exige recuperar valores e modos de vida. A participação da IRI no Tapiri e na Vigília pela Terra, promovida pelo ISER, reforçou que fé e ciência podem ser aliadas estratégicas na educação para justiça climática. “A IRI-Brasil atua ativamente neste contexto, unindo fé e ciência pela preservação do planeta e pelo bem viver dos povos da Amazônia e do mundo”, afirma o coordenador nacional da IRI-Brasil Carlos Vicente, também ouvido pelo Bereia.
A representante da Igreja Batista do Pinheiro (Maceió-AL) no evento jornalista Josileide Santos, trouxe ao Tapiri um testemunho contundente sobre o crime socioambiental que a capital alagoana e sua comunidade religiosa sofreu, e sofre até hoje, por causa do desastre impetrado pela mineradora Braskem. “Venho de uma comunidade que sofre um dos maiores crimes ambientais em área urbana. O trabalho desordenado de uma mineradora levou ao esvaziamento de cinco bairros. Mais de 60 mil pessoas tiveram de deixar suas casas e espaços de trabalho”.
Para Santos, o paralelo com a Amazônia é evidente. “O modus operandi não muda. Em Maceió, as decisões são tomadas pelo poder público em acordo com a Braskem, sem ouvir os atingidos. Aqui na Amazônia, percebi pouca presença dos povos originários nas discussões da COP. É a mesma lógica de silenciamento”, lamenta. “Como pessoas de fé, não podemos fugir da responsabilidade. Fomos a única instituição religiosa que não fez acordo com a Braskem. Continuamos resistindo. Precisamos dar voz às pessoas atingidas pela injustiça socioambiental”.
O acidente geológico causado pela Braskem em Maceió vem se arrastando desde 2018. A exploração do mineral sal-gema causou a instabilidade no solo, fazendo com que houvesse afundamento em diversos bairros e milhares de imóveis tiveram a estrutura comprometida. A empresa anunciou um acordo com o estado para pagar R$ 1,2 bilhão em indenizações relacionadas ao desmoronamento, entretanto, a Igreja Batista Pinheiro, Patrimônio Material e Imaterial de Alagoas, não aceitou o acordo.
“Nosso templo não apresenta rachaduras, nem qualquer sinal de risco estrutural. É um território seguro, que pulsa história, fé e justiça. E por isso, seguimos lutando: pelo nosso direito de voltar, de ocupar com dignidade o chão que é nosso por legado e por compromisso com o Reino de Deus. Enquanto o crime da Braskem tenta arrancar nossas raízes, nós aprofundamos ainda mais o nosso pertencimento”, diz uma publicação de 1/6 na conta oficial da Igreja no Instagram.
Bereia checou o caso da Igreja Batista do Pinheiro, colocado em dúvida em postagens nas redes digitais, e, na live de aniversário, em 4 de novembro passado, ouviu a pastora Odja Barros sobre o caso.
Tapiri como novo capítulo do diálogo inter-religioso
A Iniciativa das Religiões Unidas (URI) participou ativamente na construção do Tapiri. Para a integrante Maria Salette Mayer de Aquino, ouvida pelo Bereia, o espaço foi resultado de um ano inteiro de articulações. “Foi uma alegria enorme participar. Sonhamos essa programação por mais de um ano. Aqui tivemos mesas sobre todos os temas relevantes para a humanidade. Meu desejo era que todo mundo do planeta pudesse ouvir essas falas.”
O conselheiro global da URI Elianildo Nascimento, por sua vez, destacou que o Tapiri representa continuidade e renovação. “É um novo capítulo nos esforços de diálogo inter-religioso. Desde 2022, ações vêm sendo construídas na Amazônia, envolvendo ribeirinhos, indígenas, igrejas e grupos religiosos. O Tapiri nasce dessa articulação e aponta para ações concretas e conjuntas, sem competições.”
A diretora executiva da Koinonia – Presença Ecumênica e Serviço Ana Martins Gualberto disse, em entrevista ao Bereia, disse que a organização optou por priorizar mobilizações locais em vez de investir em grandes delegações para a COP30. “Compreendemos a urgência do debate climático. Então organizamos dois focos: o encontro Vozes Quilombolas pelo Clima, no Rio, e o Refazendo Laços, Terreiros pelo Clima, em Salvador”.
Ana Gualberto garante que esses eventos, não apenas deram visibilidade, mas resultaram em estruturas permanentes de ação. “No Rio, construímos um fórum permanente entre quilombolas, sociedade civil e poder público. Em Salvador, denunciamos a invisibilidade dos terreiros no debate climático, o poder público dialoga muito pouco com povos de terreiro”, aponta a diretora que destaca o papel religioso e político dos territórios sagrados. “Territórios de culto são também territórios ambientais. Preservá-los significa proteger áreas verdes e modos de vida. Como ialorixá, me comprometo com essa pauta. Em 2026 teremos novas ações com quilombos e terreiros”, assegura.
O Tapiri também articulou expressões culturais durante a Cúpula dos Povos. Grupos indígenas, artistas afro-amazônicos, coletivos de juventude e movimentos de mulheres passaram pelo espaço. Essa pulsação se conectou à Marcha dos Povos pelo Clima, que levou mais de 70 mil pessoas às ruas de Belém.
Documento Final: espiritualidade como força de transformação
O Documento Final do Tapiri foi lido coletivamente, denunciando fundamentalismos, racismo ambiental e injustiças estruturais, e convocando comunidades de fé a incluir direitos socioambientais em seus púlpitos, conselhos e agendas públicas. A reverenda Bianca Daébs resumiu esse chamado: “Se colocarmos negacionismo climático e direitos socioambientais nas agendas das organizações de fé, contribuímos diretamente para dar vida digna às pessoas. O Tapiri é um legado muito maior do que conseguimos dimensionar”.
Em Belém, diante do mundo, as comunidades de fé mostraram que a defesa da Amazônia é também defesa da justiça, da dignidade e da vida. “Nossa responsabilidade é cuidar da criação e dar voz aos silenciados”, finalizou a jornalista da Igreja Batista do Pinheiro Josileide Santos.
Referências
SimPodCrer – Super live aniversário do Bereia
https://www.youtube.com/watch?v=FItmWlnt_Tg Acesso 01 dez 2025
ISER https://iser.org.br/noticia/vigilia-pela-terra-mobilizacao-inter-religiosa-e-cultural-chega-em-belem-para-cop-30/ Acesso 01 dez 2025
Bereia
https://coletivobereia.com.br/vigilia-pela-terra-reune-espiritualidades-movimentos-sociais-e-arte-no-rio/ Acesso 01 dez 2025
CESE
https://cese.org.br/noticia/troca-de-conhecimentos-saberes-e-afetos-marcam-o-tapiri-ecumenico-e-inter-religioso-na-cupula-dos-povos-cop30/ Acesso 01 dez 2025
Agência Publica
https://apublica.org/2023/12/a-igreja-dos-ultimos-dias-da-braskem-em-maceio/ Acesso 01 dez 2025
Koinonia
https://kn.org.br/noticias/koinonia-participa-do-tapiri-ecumenico-e-inter-religioso-na-cupula-dos-povos-em-belem-em-paralelo-a-cop-30/19304/ Acesso 01 dez 2025
Disponível em: Coletivo Bereia, Fé em defesa da Amazônia: movimentos marcam presença na COP30 com o Tapiri Ecumênico e Inter-religioso –
Fonte: Coletivo Bereia – 01/12/2025
