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Laroyê, Exu!

Porque ele, também, está no meio de nós

Por Lídia Maria de Lima 1

Era um sábado frio, do outono paulistano. Reunidos na Praça Roosevelt, alguns religiosos celebravam a diversidade. Gente de fé: por direitos e políticas públicas que respeitem a diversidade e todas as religiosidades. O ato que antecedia a maior Parada do Orgulho LGBTQIA+ do mundo, trouxe um movimento diferente para aquela praça e atraiu olhares curiosos de populares e de transeuntes.

O grupo seguia um rito de invocação sagrada e de responsabilização da humanidade pela desordem e pela desumanização que, vez por outra, se deposita em corpos que são vistos como “minorias” ou a margem” da sociedade. De repente, ele apareceu. Parecia cansado, com os pés empoeirados, as mãos calejadas e um sorriso desconfiado e “malandro” de quem sabe que, para sobreviver nas ruas das grandes metrópoles é necessário sagacidade e uma certa “malandragem”. Sorria desconfiado e mantinha os olhos e ouvidos atentos para tudo o que era dito naquele rito e, vez por outra, balançava a cabeça, como se concordasse com aquilo que estava sendo dito. “Tem uma cara conhecida, né?” – Assim diziam as pessoas que percebiam a sua presença, mas não sabiam dizer quem ele era. Vez por outra, ele parecia inconveniente, falava alto, ria do que achava engraçado e tentava interagir com a liderança política, social e religiosa que por ali passava.

Parece um Exu!

“Parece um Exu!” – disse alguém no meio da multidão. “Sim. Ele lembrava mesmo esta entidade”. Trazia uma garrafinha em uma das mãos e pulseiras de contas vermelhas no punho. Do nada, ele se aproximou do padre que fazia uso da palavra. Parecia gostar do que ouvia e se sentiu à vontade para o abraça-lo e deitar-se sobre os ombros do reverendo, de maneira irreverente. Depois, pediu a palavra, mas se distraiu com um pássaro que caiu bem junto do seu corpo. Ele acolheu o pássaro e o segurou durante todo o rito. Era um Exu, e aquele gesto nos trouxe a memória as intrigantes palavras do antigo ditado Yorubá: “Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só atirou hoje!”

Nós, religiosos estávamos ali, tentando acertar um “alvo” que atinge a dignidade da população LGBTQIA+ há tempos; algo que está presente desde o passado, mas que compromete inclusive o nosso futuro. Lançamos uma pedra hoje, numa tentativa de acertar algo que nos assusta por longa data. E as lutas sociais que travamos na atualidade, são resultados de atravessamentos e processos de exclusão que nos assolam desde o passado e que exigem de nós reações imediatas, que possam, minimamente, garantir o presente. Pedras que se constituem da história e das ações de nossos antepassados. Sim, porque a história é continua, cíclica e exige a reverência, o reconhecimento e a valorização de quem lutou e atirou as pedras, bem antes de nós.

Inclusão prática e efetiva

Naquele dia, Exu abraçou o padre, cumprimentou o pastor e a pastora, dançou um mantra hindu, aplaudiu os pontos cantados por candomblecistas e umbandistas; depois, uniu-se às lideranças para a bênção final – momento em que, segundo alguns intelectuais presentes, ele recitou trechos do alcorão. Exu é o próprio grito na encruzilhada. É a ação e a reação contra a intolerância religiosa e a discriminação racial. Exu é a inclusão. É o movimento e o manifesto. É o ato coletivo e inesperado, que une as diversidades, em busca de respeito e liberdade.

Era um sábado frio do outono paulistano. O povo de fé se uniu para celebrar e lutar por direitos. E um sagrado, tão livre, inesperado e tão desprovido de rito e de roteiro, de tempo e da formalidade, decidiu sorrir e se manifestar entre nós bem assim: um Exu. O senhor da comunicação, do movimento e das ruas,
abriu os caminhos do povo, preparando-os para a festa da Parada que viria na manhã seguinte e nos reparando para as lutas diárias, nas quais nunca estaremos só. Apareceu assim: do nada e se foi assim também. Veio nos fazer refletir sobre uma inclusão prática e efetiva. Lembrou-nos de que sagrado sempre estará ali, ao lado dos marginalizados, bem perto e bem presente: no canto, no riso, na irreverência do abraço que acolhe e na disposição de quem sabe aproveitar cada oportunidade para celebrar a nossa humanidade, manifesta em toda diversidade.

1 Téologa, pedagoga, comunicadora. Mestre em Ciências da Religião. Colaboradora de Koinonia, em SP.

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