No dia 17 de janeiro, o Arquivo Público Municipal de Salvador (BA) sediou o encontro de juventude de terreiro “A bala não escolhe sua fé”, promovido por KOINONIA. A atividade marcou os 10 anos da primeira edição do evento, realizada em 2015, e reuniu lideranças religiosas, educadoras(es) e ativistas para dialogar sobre violência de Estado, intolerância religiosa e os desafios enfrentados pela juventude negra na cidade de Salvador.

A programação teve início pela manhã com credenciamento e café coletivo, seguido de uma dinâmica de abertura conduzida por Candai Calmon, colaboradora de KOINONIA. Em seguida, a equipe da instituição apresentou sua trajetória junto às juventudes e exibiu um vídeo que resgatou a memória da primeira edição do encontro. Esse momento deu início a uma linha do tempo coletiva, construída ao longo do dia com a participação das pessoas presentes, destacando marcos históricos relacionados aos direitos humanos, às juventudes de terreiro e à atuação da organização.
A retrospectiva contou com a presença de participantes da edição de 2015, como Naiara Soares, do Nzo Maza Kisimbi Tauixi Ngana Kingongo e também colaboradora de KOINONIA, Tárcito Fernando, do Ilé Àṣẹ Iná Òfún, e Iyá Neci Neves, Ile Axé Torrun Gunan, que compartilharam suas experiências e reflexões sobre o que mudou e o que permanece igual na última década. Outras pessoas que integraram a primeira edição, como Joyce Cleide Santiago e Augusto César Arruda, ambos do Ilê Axé Alafumbi, chegaram ao longo do dia e também contribuíram nos debates.
A manhã seguiu com uma intervenção poética de Felipe Paraizo, do Abassá de Ogum, que trouxe a arte como ferramenta de denúncia e sensibilidade, e com a apresentação dialogada de dados sobre segurança pública e juventude negra, realizada por Larissa Neves, Coordenadora Regional do Pronasci Juventude em Salvador. A análise evidenciou os impactos da militarização, da letalidade policial e da negação de direitos básicos sobre a vida da juventude negra em Salvador, reforçando o caráter estrutural da violência.
No período da tarde, após o almoço coletivo, o encontro foi retomado com a divisão de grupos de trabalho para debater questões centrais, como as formas pelas quais a violência do Estado e a intolerância religiosa afetam o cotidiano das juventudes de terreiro, as estratégias de cuidado e proteção construídas pelos terreiros, e os impactos das violências relacionadas a gênero e sexualidade dentro desses espaços.
As reflexões dos grupos foram compartilhadas em plenária, revelando experiências diversas, mas atravessadas por desafios comuns, como abordagens policiais violentas, racismo religioso, insegurança territorial e a necessidade de fortalecimento de redes de cuidado comunitário. A escuta coletiva serviu de base para a apresentação, por parte de KOINONIA, de propostas de ações com juventudes para 2026, incluindo a construção de um Grupo de Referência e a definição de temas prioritários para os próximos encontros.

O encerramento do evento foi marcado pelo momento “Sonhando juntos”, conduzido por Ana Gualberto, diretora executiva de KOINONIA, inspirado nas reflexões de Ailton Krenak em “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”. A atividade convidou as juventudes a pensarem a vida para além da lógica da violência, do consumo e da homogeneização, valorizando a diversidade, a relação com a terra, a potência das narrativas, da dança e da criação coletiva como formas de resistência e reencantamento da existência.
“A proposta foi refletir sobre essa ideia do Ailton Krenak de adiar o fim do mundo e pensar quais estratégias precisamos construir para seguir sonhando com um mundo que tenha continuidade. Falamos sobre as crises climáticas, sobre as violências e sobre as iminências de fim que atravessam nossas vidas, mas, ainda assim, reafirmamos a possibilidade de sonhar e de adiar as coisas ruins. Foi muito potente perceber que esse fortalecimento apareceu a partir da conexão com o sagrado, do cuidado coletivo e da esperança como prática. As falas das juventudes trouxeram elementos concretos para a atuação de KOINONIA, como a necessidade de fortalecer espaços seguros para pessoas LGBTQIA+, especialmente pessoas trans, e de ampliar o enfrentamento às violências de gênero a partir do cuidado comunitário. Começar o ano com esse encontro nos deu muitos caminhos para 2026, um ano desafiador, mas também de muita ação”, contou a diretora executiva de KOINONIA.

O encontro foi finalizado com lanche, música e celebração, reafirmando que defender a vida da juventude negra e de terreiro é um compromisso coletivo, inter-religioso e contínuo. Ao retomar a história do “A bala não escolhe sua fé” e projetar caminhos para o futuro, a atividade reforçou o papel da memória, da organização e da escuta como estratégias fundamentais para enfrentar o genocídio da juventude negra e construir horizontes de dignidade, fé e futuro.

