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Entidades e organizações repudiam racismo religioso sofrido pela estátua de Mãe Stella de Oxóssi

Na madrugada deste domingo (04) a escultura em homenagem à Mãe Stella de Oxóssi sofreu um incêndio criminoso em Salvador, capital da Bahia. Localizado na Avenida Mãe Stella de Oxóssi, via que faz a ligação entre a Avenida Paralela e a Orla da cidade, o monumento é uma composição entre o Orixá Oxóssi e a imagem de Mãe Stella, que aparece sentada, com aspecto sereno, sendo cuidada pelo orixá, o dono de seu ori.

Indignados com o ato de vandalismo, fruto do racismo religioso frequentemente sofrido por pessoas de religião de matriz africana, entidades e organizações utilizaram as redes sociais para emitir notas de repúdio ao ato e pedir providências ao poder público.

A ativista contra intolerância religiosa e Ialorixá Jaciara Ribeiro, do Axé Abassá de Ogum, em Salvador – BA, utilizou o Instagram do terreiro para publicar um vídeo no qual se manifesta contra o ocorrido. Jaciara relembrou as diversas ações de vandalismo contra o Busto de Mãe Gilda de Ogum e que, “apesar da repercussão na mídia, não houve resolução do caso”.

“Este não é o primeiro ato de vandalismo contra símbolos da nossa fé, aconteceu o mesmo com o busto de Mãe Gilda de Ogum, basta de sermos silenciados! A mídia está dando visibilidade ao caso hoje, mas amanhã não sabemos como será. Exigimos respostas do poder público, exigimos que seja aberta uma investigação séria sobre o caso”, disse ela.

A Sociedade Beneficente Cruz Santa do Axé Opô Afonjá, pertencente ao Ilê Axé Opô Afonjá, terreiro de Mãe Stella, fundado 1910 e tombado como Patrimônio Cultural Nacional, também emitiu uma nota, assinada pela Ialorixá e Ialaxé Mãe Ana de Xangô e pelo Sr. Emanuel Antônio Santos do Nascimento, Presidente da Sociedade e do Egbé Afonjá. Nela, foi ressaltada a revolta que a instituição está sentindo com o ato de vandalismo sofrido pela estátua.

“Repudiamos com veemência o ato criminoso contra nossa ancestral que, ao longo da sua história, além de sempre defender o direito à liberdade religiosa para todos – inclusive adeptos de outros credos e denominações, construiu ações e escreveu sobre o legado do candomblé, com o objetivo de promover a preservação de seus valores culturais e sociais. Como dizia Mãe Stella: “Se não registra, o vento leva””, diz o texto.

Outra nota de repúdio foi emitida pelo Programa A Voz do Axé, que também usou as redes para se expressar. “A estátua de Mãe Stella de Oxóssi simboliza a figura de uma Ialorixá que tanto preservou e lutou pela valorização da cultura negra resguardada nos Terreiros de Candomblé. Historicamente, essa cultura tem sido alvo de perseguição e destruição de seus valores. No entanto, em vista disso, a cidade acordar com a notícia do incêndio de um símbolo da nossa tradição é uma maneira de nos afrontar e retificar o ódio ao Candomblé”, diz o texto. O Coletivo Iya Akobiodè ressaltou que está não é a primeira vez que algo assim acontece.

Vereadora em Salvador, Laina Crisostomo também se manifestou afirmando a tristeza com o que aconteceu. “É muito assustador perceber o ódio na nossa cidade, uma cidade tão preta, sobretudo no Dia de Santa Barbara, que é Iansã. Nós não vamos em nenhuma igreja atacar ninguém, mas somos constantemente atacados”, disse ela, que publicou um texto manifesto no Jornal A Tarde, um dos principais veículos da cidade. Se manifestaram, ainda, Mãe Márcia, o Centro Municipal da População Negra dentre outras organizações e pessoas a sociedade civil.

Mãe Stella de Oxóssi

Uma das principais Ialorixás do país, falecida em 2018, Mãe Stella foi a quinta Ialorixá do Ilê Axé Opó Afonjá, escolhida em 19 de março de 1976. Ao longo da vida visitou templos e casas de orixás em Oshogbo na Nigéria dentre outros locais. Foi vencedora do Prêmio de Jornalismo Estadão, concedido pelo seu trabalho de fomentação da cultura. Quando completou 70 anos de iniciação no candomblé, em 2009, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade do Estado da Bahia.

Com o intuito de preservar a cultura e ancestralidade de sua religião, Mãe Stella escreveu dezenas de livros sobre a temática do candomblé, dentre eles, “E Daí Aconteceu o Encanto”, 1988, “Meu Tempo é Agora “, 1991 e “Lineamentos da Religião dos Orixás – Memória de ternura”- Cléo Martins, 2004; participação especial de Mãe Stella.

Resolução do caso

A Fundação Gregório de Mattos (FGM) registrou um boletim de ocorrência na 12ª Delegacia, em Itapuã. O órgão, vinculado à Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult), também solicitou à Companhia de Desenvolvimento Urbano de Salvador (Desal) a retirada da peça danificada para recuperação. A remoção acontecerá somente após perícia.