Uma carta à Campanha da Fraternidade Ecumênica -Diálogo: compromisso de amor. Cristo é a nossa paz!

Diante do caos pandêmico e político em solo brasileiro nos perguntamos: é possível outra realidade com paz, justiça e garantia de direitos humanos, sociais e ambientais? Honestamente, parece que não! A impressão que temos é que há um projeto de poder articulado com setores fundamentalistas religiosos negacionistas que preferem armas no lugar da vacina. Preferem agendas do agronegócio a práticas da economia solidária e da agricultura familiar e agroecológica. Preferem o privilégio dos homens brancos à resistência de mulheres indígenas, quilombolas e negras. Preferem uma visão de mundo europeizada-americanizada dicotomizada à imersão na integralidade corpo-natureza dos povos tradicionais e originários. Preferem os mitos gregos ao panteão africano. Preferem muros a pontes. Preferem julgar e condenar a acolher e abraçar.

Estamos em profundo cansaço! Está muito difícil esperançar! Como sugere Edson Gomes (cantor de reggae do recôncavo baiano), “a lua não é mais dos namorados – os velhos já não curtem mais as praças”. Uma nação dilacerada pela dor, pelo luto, pela ausência de teto, pão, trabalho e amor. Com efeito, experimentamos um tempo que exige de nós cada vez mais capacidade de resistir para recriar.

É importante ressaltar que nossas lágrimas no exercício da alteridade e da empatia também regam possibilidades de novas sementes. Reafirmamos nesta complexidade dos fenômenos religiosos a relevância das vozes produzidas por setores ecumênicos e progressistas. Vozes em defesa da vida em suas múltiplas maneiras de existir. Tradições religiosas que no escritório, no templo, no terreiro, no sindicato, na universidade, nas redes sociais e na ONG buscam uma espiritualidade diaconal, afetiva, libertadora, emancipatória e humana.

De fato, seja com a mochila nas costas e o tênis sujo de barro, essas mulheres e homens que compõem essas instituições buscam através de uma escuta sensível compreender e estabelecer estratégias de superação de violências que sangram corpos (principalmente) afro-indígenas de mulheres em nossa nação. Muitas incidências são produzidas em defesa da vida ameaçada, banalizada, objetificada e animalizada por políticos-religiosos ilusionistas da moralidade e missionários do terror.

Não iremos naturalizar a morte como se vidas fossem números. Não iremos nos calar e nem nos omitir diante da nuvem cinzenta que nos impede de ver o sol e um novo dia. Iremos de mãos dadas continuar o grande mutirão da beleza, da poesia e da humanização. Silêncio dos bons? Aqui não! Junto aos sinos, violões e atabaques escutamos e produzimos sons para a grande festa do abraço, pois, nela haverá uma grande mesa da diversidade onde iremos sorrir, beber, comer e brincar.

Enquanto esse dia não chega, nós nos fortalecemos com fé e cuidado mútuo. O rosto do divino é também rosto humano diverso, é terra, território e muitos povos. É cuidando de alguém e de nós mesmos que percebemos a face amorosa do mistério divino que nos acolhe no colo e sussurra em nossos ouvidos: estou com você! Não tenha medo! Finda a tempestade o sol nascerá. Com efeito, nossa gratidão às muitas mãos disponíveis para denunciar injustiças e anunciar através da fé e do compromisso, uma outra realidade. Animem-se mais uma vez, pois, como sugere Belchior: tenho sangrado demais – tenho chorado pra cachorro – ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.

Embora dizem que a CFE finaliza na Páscoa, para nós, do Movimento Ecumênico, no domingo da Ressurreição ela se fortalece, porque é pela Ressurreição que compreendemos que a violência não vence o amor incondicional de Deus pela Criação.

                  

                   Fórum Ecumênico ACT Brasil, 26 de março de 2021

As ciências, as curas e os cuidados – enfrentando os fundamentalismos

 

Vivemos no país hoje o ponto mais alto de contágios e mortes causadas pelo coronavírus. Se por um lado temos finalmente a perspectiva da vacinação que poderá levar o país à imunização, o caminho que nos trouxe até aqui não foi linear.

Veja ainda: Fundamentalismos, crise na democracia e ameaça aos direitos humanos na América do Sul é tema de pesquisa publicada por Koinonia


O negacionismo e a desinformação, que trazem por detrás interesses políticos específicos, semearam dúvidas e falsos tratamentos entre a população. Desde a compra e produção da hidroxicloroquina por parte do Governo Federal, o “kit covid”, a “gripezinha” e os feijões mágicos, esse discurso teve especial permeabilidade entre alguns grupos religiosos.


O fundamentalismo que se expressa de diversas formas, também tem a sua contribuição no fortalecimento de visões negacionistas que hoje causam mortes em nosso país.

Como grupo de jovens ecumênicos, inter-religiosos e interfé, nos reunimos neste espaço de trabalho para identificar, refletir e pensar em forças de ação frente ao fenômeno multiforme do fundamentalismo. Te convidamos para nos ajudar nessa reflexão.

No dia 31 de março, às 19h, estaremos reunidos via Zoom com Alana Moraes: Doutora em antropologia pelo Museu Nacional (UFRJ), pesquisadora do PimentaLab (Unifesp); Yury Orozco: teóloga feminista sob a Mediação: Angelica Tostes: teóloga feminista, interfé e pesquisadora do Instituto Tricontinental,  neste projeto coordenado por Daniel Souza e KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço.

Apresentamos algumas de nossas perguntas norteadoras:
a. Na pandemia, quais os sentidos e a quem/como serve o negacionismo científico e a desinformação?
b. Há possibilidades de conexões e vínculos entre os saberes técnico-científicos e a gramática “simbólico-religiosa”?
c. Quais os métodos científicos e quais os modos de fazer ciência?
d. Como aprender de outras ciências, outras visões de mundo e outras práticas de cura/cuidado que estejam para além das lógicas modernas?
e. Nas relações entre cura e cuidado, o fundamentalismo e o negacionismo se mostram como um espaço de segurança e circulação de afetos?
f. Quais as vinculações entre movimentos baseados na fé e as mobilizações (na pandemia e antes dela) para a garantia de uma saúde pública, universal, gratuita e de qualidade?
g. Nas relações com a ciência moderna (saber técnico-científico), quais os jogos, os usos e as instrumentalizações dos fundamentalismos?

 

Venha participar conosco dessas duas horas de reflexão e trabalho.

Serviço:

As ciências, as curas e os cuidados – enfrentando os fundamentalismos
Encontro para debate e formação

📌 Dia 30 de março às 19 horas (Brasília)
📲 Inscrições em: bit.ly/CienciasCuidados

ESTÁ DE VOLTA! Curso de Escuta Ativa e Empática “Mulher, vai tudo bem contigo?”

O Curso de Escuta Ativa e Empática “Mulher, vai tudo bem contigo”? foi lançado em julho de 2021 já durante a crise da pandemia da covid-19, com o objetivo de atuar diante do aumento de casos de violência contra as mulheres. É uma parceria entre KOINONIA  e Evangélicas Pela Igualdade de Gênero.

Veja também: Cartilha de sistematização do Curso de Escuta Ativa e Empática.

Nesta segunda edição do curso, vamos adaptar a formação também para o formato de whatsapp, com o objetivo de estarmos alinhadas a uma visão popular da comunicação que entende as diferentes demandas e possibilidade de acessar os conteúdos.

Vivemos tempos de muitas dores, nas nossas famílias e na sociedade e as mulheres estão sobrecarregadas. Segundo um estudo realizado ano passado, 50% das brasileiras passaram a cuidar de alguém na pandemia, mulheres negras, pardas e indígenas principalmente. (2020, SOF e Gênero e Número)

Ainda sobre o estudo, 91% das mulheres acreditam que a violência doméstica aumentou ou se intensificou durante o período de isolamento social. Quando perguntadas sobre suas experiências pessoais, no entanto, menos de 10% afirmaram ter sofrido alguma forma de violência no período de isolamento. (acesse: www.mulheresnapandemia.sof.org.br)

No Curso vamos abordar diferentes e fatores que estão interligados quando se trata de violência contra a mulher, pois sabemos que somente orar não é o suficiente para romper com a situação.

O curso é totalmente gratuito, virtual, e construído por uma equipe multidisciplinar de mulheres EIG e da equipe de Koinonia Presença Ecumênica e Serviço com experiência no tema em diferentes perspectivas: na educação, teologias, assistência social, direito, saúde, psicologia, na comunicação e em vivências nos espaços religiosos.

O público alvo da formação são mulheres, lideranças religiosas ou não; mas também abrimos para homens que se interessem em somar neste enfrentamento!

Como se inscrever? Simples, acesse www.bit.ly/EscutaAtiva2021

#KOINONIApordireitos #MulheresEIG #teologiafeminista #Violenciadomestica #justiçadegenero #covid19noBrasil #diaconiaecumenica #disk180

Evento debaterá intolerância, direitos, fundamentalismos e exclusão

Por CONIC

Será realizado na próxima quarta-feira, 17/03, às 10h de Brasília, o evento online “Intolerância Religiosa no Brasil: Direitos Humanos – Novos Fundamentalismos – Exclusão”. A
atividade, que ocorrerá em paralel
o à 46ª sessão ordinária de Direitos Humanos das Nações Unidas, tem por objetivo analisar e debater os impactos das agendas fundamentalistas na vida das mulheres, povos originários e comunidades tradicionais.
Assista a gravação:
 
Organizações religiosas e de direitos humanos, entre elas o CONIC, são proponentes desta ação, que também tem como objetivo é ouvir experts da ONU sobre liberdade religiosa, os standards internacionais aplicáveis em matéria de intolerância religiosa e os caminhos práticos para superá-los. 
 
Os organizadores esperam identificar as interconexões entre os diferentes fundamentalismos para a articulação e formação de alianças estratégicas entre diferentes grupos e movimentos. Compreende-se que os fundamentalismos resultam de estratégias que ameaçam e buscam controlar as democracias, afetando diretamente a defesa e ampliação dos direitos humanos, econômicos, sociais, ambientais e culturais. Os fundamentalismos desafiam as respostas desenvolvidas por organizações de direitos humanos e reduzem o espaço de participação da sociedade civil organizada.
 
A mesa será composta por:
 
  • Ahmed Shaheed, relator Especial das Nações Unidas sobre Liberdade de Religião ou Crença; (a confirmar)
  • Adelaide Lopes, Ñandesy Kaiowá (Pajé) membra da Aty Guasu Kaiowá e Guarani no Mato Grosso do Sul e do movimento de mulheres indígenas; 
  • Wania Sant’Anna, historiadora, membro da Coalizão Negra por Direitos, com pesquisas no campo das relações de gênero e relações étnico/raciais. Ex-Secretária de Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro e atualmente vice-presidente do Conselho do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE);  
  • Magali do Nascimento Cunha, doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo, coordenadora do Grupo de Pesquisa Comunicação e Religião da INTERCOM (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação). Coordenou a pesquisa Fundamentalismos, crise da democracia e ameaça aos direitos humanos na América do Sul;
  • Romi Márcia Bencke, pastora, bacharel em Teologia pelas Faculdades EST, mestre em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora, secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC). 
 
A mediação será realizada por Paulo Lugon, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). O evento será transmitido pelas redes sociais das organizações proponentes, o que possibilitará aos internautas acompanhar o debate, comentar e enviar perguntas aos palestrantes. A Pa. Dra. Elaine Neuenfeldt, do Programa Global de Justiça de Gênero da Aliança ACT, e a Irmã Lúcia Gianesini, vice-presidente do Cimi, farão a abertura do evento.
 
Organizações proponentes:
 
  • Conselho Indigenista Missionário – Cimi
  • Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC (no dia do evento, clique aqui para assistir)
  • Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil – AMDH
  • Movimento Nacional de Direitos Humanos – MNDH
  • Coalizão Negra por Direitos
  • Fórum Ecumênico ACT Brasil – FE ACT Brasil
  • ACT Alliance
  • Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – Ibase
  • Fundação Luterana de Diaconia – FLD
  • Sinfrajupe – Serviço Inter-Franciscano de Justiça, Paz e Ecologia
  • Coordenadoria Ecumênica de Serviço – CESE
  • Processo de Articulação e Diálogo Internacional – PAD
  • KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço
  • Red Latinoamericana Iglesias y Minería – IyM
  • DIACONIA
  • Misereor
 
Serviço:
 
O quê: Evento para debater intolerância religiosa, direitos humanos, novos fundamentalismos e exclusão.
Quando:  Quarta-feira, 17 de março, às 10h (horário de Brasília). Durante a 46º sessão do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas.
Quem: Organizações proponentes do evento.
Por onde acompanhar: Pelas redes sociais das organizações proponentes.

Prevenidas abre inscrições para curso sobre Juventudes, Sexualidade e Direitos Humanos

VOCÊ TEM INTERESSE EM APRENDER SOBRE JUVENTUDES, SEXUALIDADE E DIREITOS HUMANOS? 

Link para inscrição: bit.ly/Prevenidas2

Koinonia Presença Ecumênica e Serviço, em parceria com a Coordenadoria de IST/AIDS da Cidade de São Paulo por meio de convênio, irá realizar um curso gratuito sobre o tema! Com o intuito de possibilitar a formação das juventudes para lidar com questões sobre HIV/AIDS, prevenção à ISTs em geral, a causa LGBTQIA+ e os Direitos Humanos no Brasil e em São Paulo principalmente, o Projeto Prevenidas dá continuidade aos ciclos de aprendizado e inicia seu segundo ano com novas adaptações.

O curso é GRATUITO e contará com 3 módulos, totalizando 9 aulas, e será realizado entre os meses de Março e Maio, contando com especialistas sobre cada um dos temas abordados que irão passar por sexualidade, racismo, transfobia, tipos de prevenção, desejos e prazeres, religião, novas tecnologias e muito mais! Ah, e não menos importante, iremos emitir certificado a cada módulo do curso! 

Para o primeiro módulo, não temos como falar de sexualidade no Brasil sem considerar o processo histórico no qual nosso país foi invadido por colonizadores que tinham sua religião, costumes, tabus e estereótipos em torno do sexo e de suas práticas, e que entrou em contato e embate com culturas em um continente que tinha seus nativos com suas histórias, vivências, costumes e religiões que não foram reconhecidas pelos seus invasores. Então abordaremos questões como: sexualidade e normas culturais, o movimento LGBQTIA+ e as opressões, a prevenção em HIV/AIDS e a relação com a religião, como os tabus e as religiões influenciam as vivências sexuais na atualidade, entre outros temas. 

Já no segundo módulo, Associar o sexo ao prazer, desejos e relaxamento é fundamental, mas não podemos deixar de falar sobre direitos sexuais e direitos reprodutivos e das novas tecnologias da prevenção. Tecnologias essas que vieram para revolucionar o que e como falamos sobre sexo e prevenção. Mas que também precisam falar sobre desejos e sobre prazeres, propondo uma forma de educação para a sexualidade mais responsável e sadia do que a oferecida pelos produtos culturais e pornográficos.

A partir de todo o conhecimento construído ao longo desse curso, somos desafiados no 3º módulo a pensar como intervir na realidade para construir uma sociedade onde a sexualidade seja mais segura e sem preconceitos? Inicialmente pensamos em estruturar com os participantes uma reflexão acerca dos seus territórios de origem e como intervir neles especificamente. Com o advento da pandemia e o crescimento contínuo da vida digital online, propomos a análise de um território diferente, o território digital.

Então você, que tem entre 15 e 29 anos, morador da cidade de São Paulo, e tem interesse em saber mais sobre o assunto, vem com a gente!! Para que assim, possamos construir uma sociedade cada dia mais aberta, respeitosa e inclusiva!

Acompanhe nosso instagram sobre Juventudes, Sexualidade e Direitos Humanos! @juventudesdh

Em caso de dúvidas envie um email para comunica@koinonia.org.br

Regularização jurídica para os terreiros

Neste guia falaremos sobre os tipos de pessoas jurídicas e os
enquadramentos para os terreiros com o passo a passo de cada
etapa no caminho para a regularização.

Apresentaremos as opções salientando que a decisão sobre aescolha do tipo de pessoa jurídica é de cada casa.

Como somos parceiros de caminhada, colocaremos sugestões e
algumas dicas para auxiliar neste processo.

Para facilitar a consulta de vocês, seguiremos no formato de
perguntas e respostas com as dúvidas que mais apareceram em
nossos atendimentos jurídicos. Vamos nessa?

Faça download da publicação aqui

Atingido/as por enchentes da zona leste de SP se reúnem com Subprefeitura de São Miguel Paulista para discutir pautas e reivindicações

Por Coletivo de Comunicação do MAB São Paulo

Nesta segunda-feira 22/02, representantes da coordenação do MAB na zona leste de São Paulo se reuniram com membros da Subprefeitura de São Miguel Paulista para debater sobre a pauta de reivindicações dos atingidos na região. A reunião foi marcada após o ato do dia 28/01, dia no qual foi entregue a pauta.

Participaram da reunião o subprefeito de São Miguel Paulista, Ivaldo da Silva, seu assessor representante do governo do estado, assim como as coordenadoras e coordenadores do MAB na região.

Leia também: Dos efeitos das enchentes à organização para a luta: A trajetória das atingidas da Zona Leste de SP

O MAB reafirmou a lista de reivindicações das famílias atingidas, sendo: a realização de cadastro socioeconômico das famílias atingidas, reassentamento das famílias em situação de risco, limpeza e desassoreamento dos rios e córregos, revisão da infraestrutura, programa de educação ambiental, garantia de saneamento básico para todas as famílias, plano de segurança e contingência contra as enchentes e barragens, regularização fundiária, cestas básica de alimentos e higiene, assim como o acesso automático à Tarifa Social de Energia Elétrica.

A subprefeitura afirma que elaboraram um programa de ações preventivas, que incluiu plano de segurança e contingência das enchentes, e mapeamento socioeconômico das famílias, mas o MAB apenas teve acesso ao documento na reunião de hoje. Isto significa que o povo não teve participação desta elaboração. Também comentaram que já foram retiradas 7,4 toneladas de lixo, com limpeza dos córregos até a União de Vila Nova . Também afirmam que estão realizando obras de combate de enchentes, mas que a maior parte das ações não são de competência deles, e que não existem programas de reassentamento, nem da prefeitura, nem do governo do estado.

Quanto à Tarifa Social, também abdicam da posição e argumentam que não é competência da prefeitura. Também se comprometeram a visitar algumas comunidades junto à coordenação do MAB para fazer mapeamento da situação vivida pelas famílias atingidas.

“Nós do MAB vemos que, apesar da importância da reunião, o esforço da subprefeitura foi de retirar sua responsabilidade frente a grave situação pela qual as famílias atingidas pelas barragens e enchentes passam na região. Repetem-se os mesmos argumentos, de que são feitas obras, mas por coincidência nenhuma delas tem resolvido o problema até agora, e muito menos se comenta sobre a reparação das famílias atingidas que tem perdido muitos pertences durante as recorrentes enchentes e sofrem com abalamentos psicológicos. Acreditamos que a subprefeitura tem o dever de, junto à prefeitura e governo do estado, elaborar um plano de reparação e atender todas as demandas da pauta do MAB.

Não aceitaremos mais enrolação ou argumentos para tirar a responsabilidade, e seguiremos organizados e em luta para garantir nossos direitos.”

Atingidos em defesa da vida: #bastadeenchentes!

*Koinonia Presença Ecumênica e Serviço tem atuado junto ao MAB no apoio e fortalecimento de famílias e comunidades atingidas por barragens/ enchentes em São Paulo por meio de ajuda emergencial da ACT Aliança.

Nova edição do informativo digital Fala Egbé

Nesta edição relembramos algumas ações que fizemos junto as comunidades de terreiro e comunidades negras rurais e quilombolas ao longo de 2020.

Ana Gualberto, Assessora de Koinonia e Camila Chagas, colaboradora, educadora popular e advogada, refletem sobre em um artigo conjunto sobre “O Direito Fraterno como instrumento de enfrentamento à intolerância religiosa” e seus desdobramentos.

Também abordamos os atos de solidariedade que se sobressaíram e se sobressaem ao racismo e ao ódio inter-religioso durante esse período de pandemia, fazendo com que qualquer ato de preconceito não tenha força diante das demonstrações do cuidado e do comum. O texto é assinado por Rafael Soares, diretor de Koinonia.

Clique aqui e acesse a publicação

Dos efeitos das enchentes à organização para a luta: A trajetória das atingidas da Zona Leste de SP

Por Diego Ortiz
Coletivo de Comunicação do MAB*

Na manhã de 28 de janeiro, os atingidos da zona leste se reuniram na sede do Grêmio União de Vila Nova, no Jardim Nair, para manifestar aquilo que há muitos anos afeta a vida população: as constantes perdas provocadas pelas enchentes.

Portando máscaras, distribuindo álcool em gel, vestindo camisetas do MAB e carregando bandeiras e cartazes com fotos das enchentes, os atingidos marcharam pelas ruas dos bairros atingidos em direção à subprefeitura de São Miguel Paulista.

A “mulherada”, termo usado nestes espaços ao se referir ao engajamento das mulheres nas lutas e ações, era a grande maioria daquela marcha, que caminhou até a subprefeitura para reivindicar seus direitos.

O calor, a subida e o cansaço não foram impedimento para o povo, que entoava músicas e palavras de ordem que davam o tom da luta e animavam o espírito coletivo. “Águas para a vida, não para a morte!”, “Atingidos em defesa da vida: basta de enchentes!”, “Somos todas e todos atingidos!” foram algumas das frases recorrentes, repetidas no trajeto e no ato, especialmente na chegada à subprefeitura.

“Aqui toda vez que chove a gente perde nossa história”, comenta uma das companheiras da região sobre as enchentes, na ocasião de uma das enchentes em 2020.

Na zona leste de São Paulo, mais precisamente na região de São Miguel Paulista e Itaim Paulista, às margens do Rio Tietê, são milhares as pessoas que sofrem com as enchentes. A cada chuva que chega, e principalmente durante as chuvas de verão, casas e ruas ficam alagadas, provocando inúmeras perdas – colchões, móveis, eletrodomésticos, carros, documentos, alimentos, objetos pessoais e memórias que ficam submersas e perdidas nas águas que, por vezes, alcançam a altura de uma pessoa adulta.

Além disso, a água se mistura ao esgoto, o que é fonte de doenças e ataca a saúde da população. Em todos os casos, ainda, o trauma e os efeitos psicológicos são tão grandes que, a qualquer chuva, as pessoas ficam desesperadas, buscando resgatar pertences levando-os para outras casas ou em andares construídos acima do térreo como refúgio nos períodos de enchentes.

Não se trata apenas de um efeito climático, mas de um processo histórico e social de exclusão, no qual a população mais pobre e trabalhadora foi obrigada, nas grandes cidades, a ocupar regiões periféricas em morros ou várzeas de rios, muitas vezes de modo desordenado, acessando moradias em situações precárias, sem o apoio de políticas de planejamento urbano e infraestruturas associadas que atendessem este contingente.

Enquanto isso, as áreas nobres e valorizadas ficaram em mãos das classes mais ricas. Para além deste processo, esses bairros da zona leste atingidos por enchentes são ainda mais afetados pelo fechamento das comportas da barragem da Penha, de responsabilidade do governo estadual, em épocas de chuva, para evitar o transbordamento do rio na altura da marginal Tietê, enquanto as barragens acima são abertas, o que gera uma grande concentração de águas no local.

O assoreamento dos rios, o asfaltamento de várzeas, o descaso dos governos sucessivos, tanto municipal como estadual, são agravantes de um problema social que existe há décadas, e que na atual conjuntura é somado aos efeitos da crise sanitária da Covid-19 e crise econômica (desemprego, ausência de renda, aumento das infecções, etc.), impactando de maneira negativa os atingidos.

A luta, no entanto, não começa nem termina no ato do dia 28. Antes e depois desse dia, a jornada de reinvindicações é constante e cotidiana, empreendida pelos coordenadores e coordenadoras do MAB, nas passagens de casa em casa das famílias atingidas pelas enchentes, tanto para saber da situação como para convidá-las à luta com organização do movimento, realizando reuniões, planejando ações, buscando acabar com as enchentes e garantir a reparação da população.

As famílias se organizam em grupos de atingidos, definindo coordenadores e coordenadoras por grupo, e assim vão se somando ao longo de toda a região para defender seus direitos. Esse trabalho organizativo do MAB na zona leste é realizado em meio às enchentes e pandemia, no início de 2020, com ações de solidariedade e ajuda emergencial e humanitária, em parceria com a Koinonia – Presença Ecumênica e Serviço (que representa o Fórum Ecumênico ACT Brasil), distribuindo alimentos, materiais de higiene, máscaras, álcool em gel, dando apoio psicossocial às famílias nesse período de crise.

Foi assim que Maila Amaral das Neves, atingida pelas enchentes e moradora do bairro União de Vila Nova, assim como muitas mulheres da região, se organiza no movimento para lutar pelos direitos das populações atingidas pelas enchentes.

Maila é uma das coordenadoras na região e nos explica o processo de envolvimento, organização e luta. “Para mim, foi um algo novo na verdade, eu não me envolvia com política, só fazia o meu papel de cidadã, ia lá votar e tchau, né. Mas, fiquei impressionada, tive oportunidade de falar da minha comunidade, de estar presente em reunião com o prefeito e foi gratificante, foi prazeroso. O MAB tem pessoas muito fortes, guerreiros, na reunião, eu pude ver o pessoal falando alto, duro, eles reivindicam, solicitam, lutam pela população mais carente”.

A atingida conta que conheceu o MAB depois do crime da Vale em Brumadinho, e foi convidada pela pastora Neia, que segundo Maila é uma líder comunitária e “mulher guerreira”, faz trabalho a muito tempo na região, e sugeriu esse envolvimento. “Vejo a luta de todas as pessoas e me veio à vontade de abraçar essa causa”, relata.

“Descobrimos que existe uma porteira [barragem] na região da Penha, ali quando chove o que eles [DAEE] fazem é fechar a porteira onde a água não consegue passar, e a água acaba voltando toda para aqui para região de União de Vila Nova, e acaba afetando o Lapena, o Itaim Paulista, vila Mara, vila Seabra, Pantanal e fora outras regiões. Outra área muito prejudicada aqui na leste é também é o Jardim Keralux, uma região muito preocupante, muito atingida pela enchente”, diz Maila.

A moradora da Zona Leste disse que, antes, achava que a culpa disso tudo era da população por colocar lixo em qualquer lugar, mas depois descobriu que há um grande descaso dos governos com as barragens e a população da região.

“Na verdade, eles acabam fechando barreiras para benefícios próprios deles, para empresas, para várias coisas e isso acaba prejudicando a população menos favorecida”, pondera.

“Eu tenho depoimentos de famílias que perderam tudo, imagina uma pessoa perder tudo o que tem, o trauma, começar de novo todo ano, porque todo ano tem chuva, ela vai ter que continuar o ano inteiro trabalhando para conquistar novamente fogão, geladeira, máquina de lavar, muito difícil para quem não tem condições financeiras nenhuma”, comenta Maila.

Foi a partir dessa indignação que Maila passou a fazer parte da organização para lutar pelos direitos de atingidas e atingidos, e atualmente coordena, junto a outras três mulheres, um grupo de 34 famílias, priorizando atualmente o contato por mensagens para manter o distanciamento durante a pandemia e garantir a comunicação, um diálogo que ocorre diariamente, em um processo que potencializa a força coletiva.

“Eu acho interessante o trabalho em grupo, porque uma vai comunicando com a outra a necessidade de cada uma e sabemos que uma andorinha sozinha ela não faz verão, precisamos estar juntos, unidos para vencermos essa batalha, sabemos que não é fácil, mas a vitória é certa. Quando estamos unidos em grupo, um ajudando o outro, um escutando o outro, e assim nós vamos seguindo avante. É interessante porque o movimento dá oportunidade para outros coordenadores também fazerem parte dessa luta, e quanto mais pessoas para somar melhor vai ser para ganharmos a batalha”.

Em nome dessa união e da força coletiva, o grupo leva o nome de “Coragem”: “o nosso grupo chama ‘Coragem’ porque eu vi que são mulheres corajosas, são famílias com coragem de lutar, com vontade de vencer”, explica. Além do grupo “Coragem”, outros grupos têm se formado, e alguns já com nomes – como no caso dos grupos “Força MAB” e “Fortaleza MAB”. Segundo Maila, essa forma de se organizar “dá oportunidade para outros coordenadores também fazerem parte dessa luta, e quanto mais pessoas para somar melhor vai ser para ganharmos a batalha”.

O protagonismo que as mulheres têm no processo, sendo visível nas lutas e ações, é parte da essência do movimento. “Eu acho interessante ter essa participação de mulheres no MAB, porque de qualquer forma acaba mostrando para todos que a mulher tem o seu valor e que existem mulheres guerreiras, solidárias, mulheres que se preocupam com a causa das pessoas menos favorecidas” comenta Maila.

Como Maila, outras mulheres são coordenadoras dos grupos das famílias atingidas e estão construindo com bravura o Movimento dos Atingidos por Barragens na zona leste, e se somam na luta por um feminismo popular.

Perto do marco importante, com a data do 8 de março, as mulheres do MAB-SP se organizam sob o lema “Mulheres atingidas em defesa da vida!”. Serão muitas as ações e ampla a organização para exigir dos governos o direito a viver de maneira digna, acabar com as enchentes, reparar as perdas das famílias atingidas e, assim, também garantir o fim das opressões e defender a ampliação de direitos das mulheres.