Nos dias 29 e 30 de novembro de 2025, das 11h às 18h, os Arcos da Lapa, no centro do Rio de Janeiro, se transformaram em um espaço de encontro, troca e afirmação cultural com a realização da Feira Aquilombar. Quilombolas de diversas regiões do estado do Rio de Janeiro se deslocaram de seus territórios para ocupar o espaço urbano, apresentar seus produtos, compartilhar saberes ancestrais e fortalecer redes de articulação, geração de renda e valorização da identidade quilombola.
O evento levou a gastronomia, o artesanato e as narrativas quilombolas para um dos espaços mais simbólicos da cidade.
O Projeto Comércio com Identidade, uma iniciativa de KOINONIA, com patrocínio do Grupo Carrefour, chega a um momento histórico de balanço, reafirmando o fortalecimento da autonomia econômica, da cultura e dos saberes ancestrais de comunidades quilombolas da Bahia e do Rio de Janeiro. O encerramento de um ciclo também é a celebração das sementes que germinaram.

Mais do que números ou resultados quantitativos, o projeto evidencia o protagonismo das comunidades quilombolas, que compartilham como a articulação entre tradição, geração de renda e organização comunitária tem fortalecido os territórios, promovendo o bem-viver e se consolidado como forma de resistência ao racismo estrutural.
Impacto direto nos territórios quilombolas
No estado do Rio de Janeiro, o Comércio com Identidade tem transformado a realidade de diferentes comunidades por meio do incentivo ao artesanato, à agricultura familiar, ao turismo comunitário e à economia solidária.
No Quilombo Fazenda Espírito Santo, em Cabo Frio, a presidenta da comunidade, Regina Severino Soares, destaca que “o projeto viabilizou cursos de capacitação hoje aplicados por um grupo de cerca de 20 mulheres”. A iniciativa fortaleceu a produção de artesanato e alimentos da agricultura familiar, ampliando a participação de mulheres na economia local e reforçando a autonomia das mulheres quilombolas.
Já no Quilombo do Alto da Serra do Mar, a diretora de juventude Valéria Cristina Leite ressalta o impacto do projeto na permanência dos jovens no território. “A geração de renda a partir da valorização cultural tem evitado o deslocamento da juventude para fora da comunidade, fortalecendo vínculos identitários e a continuidade dos saberes tradicionais”. Ainda do Quilombo Alto da Serra do Mar, em Rio Claro, a experiência do fundo solidário rotativo tem sido um dos principais avanços. Segundo Benedito (Bené), a iniciativa permite que produtores orgânicos tenham acesso a pequenos empréstimos para investir em suas plantações, devolvendo os valores à associação com taxas acessíveis, garantindo sustentabilidade econômica e fortalecimento coletivo.
Em Santa Rita do Bracuí, em Angra dos Reis, o projeto tem contribuído para a estruturação do turismo comunitário. Jussara, liderança local, explica que o Comércio com Identidade possibilitou a criação de materiais de divulgação, roteiros turísticos e padronização visual, profissionalizando a recepção de visitantes e fortalecendo a educação no território.
Para Bia Nunes, presidenta da ACQUILERJ (Associação das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro), a feira representa um momento histórico. “É um sonho e um marco colocar os quilombolas saindo de seus territórios para apresentar nossas tradições e produtos no Rio de Janeiro”, afirmou, destacando a parceria construída ao longo de dois anos com o Sebrae e KOINONIA.
Segundo Ana Gualberto, diretora executiva de KOINONIA, a segunda edição do Aquilombar reafirma a força e a continuidade da luta quilombola no estado do Rio de Janeiro.
“Pelo segundo ano consecutivo, as comunidades quilombolas do estado do Rio de Janeiro ocupam esse espaço. É a segunda edição do Aquilombar nos Arcos da Lapa, com muita cultura, ancestralidade, gastronomia e artesanato. É comunidade quilombola de verdade contando a sua história e reafirmando que a luta quilombola é todo dia”, destacou.
Caminhos para o futuro
O sentimento comum entre as lideranças participantes é de gratidão, reconhecimento e desejo de continuidade. Para Célia, do Quilombo Boa Esperança, o projeto representa acolhimento, aprendizado e fortalecimento coletivo.
O Comércio com Identidade reafirma que a preservação da cultura quilombola caminha lado a lado com o desenvolvimento econômico sustentável, a justiça social e o protagonismo das comunidades sobre seus próprios recursos, territórios e narrativas.
📺 Assista a entrevista completa: Comércio com Identidade: valorizando a produção de comunidades quilombolas
